NOVIDADES

22/01/13

Documento anónimo


Há gestos que, por vezes, fazem a diferença. Trata-se de gestos típicos ou fugitivos, uma espécie de tique gráfico que o escrevente pode apanhar. São formados a partir de comportamentos conscientes que, ao longo do tempo, se vão transformando em atitudes inconscientes e passam a fazer parte da própria escrita personalizada.
 Assim sendo, um gesto típico não é o resultado da ação de um músculo ou  de um órgão isolados, mas um ato de um indivíduo total, de uma pessoa singular.
O falsificador profissional procurará disfarçá-los, mas no próprio disfarce deixa o seu rasto e compete ao perito da escrita manual saber detetá-lo e interpretá-lo.
O quesito aqui colocado é o seguinte: Qual dos funcionários terá sido o autor de uma declaração anónima? Os suspeitos, com grande prática de escrita, aceitam escrever meia dúzia de palavras que constam na declaração em causa (mas os suspeitos desconhecem que tais termos fazem parte do texto anónimo). Um dos termos é a palavra “cêntimos”.
A grafia deste vocábulo apresenta-se arredondada, anelada, sinistrogira, gladiada, rápida, ascendente, com a zona média predominante, com os eixos literais ligeiramente inclinados para a esquerda e com letras espaçadas e largas. E posso acrescentar que se trata de uma escrita feminina. O que não significa que se deva atribuir a priori  a uma senhora, porque há homens  que fazem escrita feminina e senhoras que produzem  escrita masculina.  
Analisando mais em pormenor, observo ainda outras marcas pericialmente bastante pertinentes: as letras e os acentos iniciam com uma curva sinistrogira, a diferença de pressão entre os traços descendentes e ascendentes é acentuada, a vogal “i” encontra-se ligada diretamente à barra do “t” de uma maneira original e o ponto final está alto e preciso.
Entre os textos anónimos, encontra-se um com a maior parte das caraterísticas verificadas nas palavras autógrafas, como “cêntimos”.
 Um dos suspeitos, neste caso, do sexo feminino, posto perante a evidência dos factos, assume, de imediato a autoria do escrito.

18/01/13

Escrita de um adolescente como sinal de alarme


Este pequeno texto foi  escrito por um adolescente de 14 anos, que frequenta, apenas, o 5º ano de escolaridade.
Nascido numa família desestruturada, foi acolhido por uma instituição.

Padece de bruscas variações de humor, é violento e pouco interessado pelos estudos.  Não é destituído inteletualmente, mas não consegue acompanhar, minimamente,  o ritmo da turma. Quer ser o centro das atenções e tem dificuldade em concentrar-se. 

O extrato aqui apresentado faz parte dum curto ditado, preparado antecipadamente. Os erros são mais que as palavras e quase tornam o texto incompreensível.  

A habilidade gráfica é reduzida. A escrita desordenada está cheia de colagens, rasuras e emendas. Os carateres são desiguais e as linhas, descendentes. Os movimentos contêm gestos regressivos e com angulosidades. O traçado é arrítmico e lento. A inclinação das hastes das letras é variável.  Os ovais são duplamente anelados e os laços apresentam sinais de tremura. Alguns traços finais terminam em maça.
A escrita desarmónica, com um rosário de erros, deste adolescente, incapaz de interiorizar as normas sociais, constitui um grito de dor e de revolta contra os outros e contra si próprio.


A desorganização e a instabilidade da escrita refletem instabilidade do Eu e confusão na avaliação objetiva da realidade. O adolescente não interiorizou referências sadias. O desenvolvimento psicoafetivo, o sentido de responsabilidade e capacidade de fazer escolhas estão desajustados da sua idade.

Os carateres apresentam-se mais largos do que estreitos, a zona inferior está bem presente e a pressão é desigual. Estes são indícios de que o rapaz, apesar dos fraquíssimos resultados escolares, não vive inibido nem se sente constrangido. O adolescente não é dado a atividades que requerem concentração e síntese, mas é capaz de exercer missões pontuais e arriscadas.


Oxalá que o sujeito escrevente, aqui anónimo, mas, na realidade, de carne e osso, ao reconhecer-se nesta sua escrita, seja capaz de combater os seus pontos fracos e de desenvolver as suas potencialidades.
 

 

09/01/13

Paleografia versus análise da escrita manual


Podemos colocar as questões: Em que carateres foi escrito o código de Hamurabi? Como seria a escrita de Jesus? Em que tipo de letra foram escritos os Evangelhos?  
Para responder a qualquer uma destas perguntas, para distinguir documentos falsos de documentos autênticos ou para caraterizar determinada personalidade, é conveniente conhecer previamente o modelo caligráfico da época, visto que ao longo da história existiram vários padrões de escrita.
            Escrita Uncial
A escrita uncial (letras manuscritas maiúsculas) praticava-se com os alfabetos latino e grego, entre os séculos III e VIII. Corresponde a uma evolução tardia das maiúsculas romanas. O texto aparece em contínuo e as palavras não se separam nitidamente. Entre os séculos VIII e XIII, foi empregada em títulos e capítulos de livros, tendo sido gradualmente substituída pela minúscula carolíngia.
 
Nos séculos V e VI, as letras unciais sofreram várias alterações, especialmente com o aparecimento de hastes ascendentes e descendentes, dando origem à escrita semiuncial.
 
A escrita carolíngia (séculos IX-XII), iniciou-se no reinado de Carlos Magno, rei dos Francos e espalhou-se por quase toda a Europa.
 
      Extrato da Carta de Pero Vaz de Caminha
 
A escrita gótica (séculos XII-XVI), derivada da escrita carolíngia, corresponde a um tipo de letra angulosa e com linhas quebradas. Este estilo continuou a ser usado na Alemanha até ao século XX.
A escrita gótica cortesã, utilizada nas Cortes, em meados do século XIV, tinha menos corpo que a atual e era mais ligada e mais apertada. Generalizou-se a partir de meados do século XVI.
 
A escrita gótica processual, utilizada nos documentos judiciais e processos públicos, era uma degeneração da gótica cortesã. Maior e mais rápida que a cortesã, continha muitos enlaces e ornamentos. O espaço entre palavras era irregular.
A escrita gótica encadeada era empregada pelos notários, escrivães e tabeliães, entre os séculos XVI e XVII. As letras e as palavras ligadas dificultavam a leitura, chegando a existir linhas inteiras sem que fosse levantada a caneta do papel.
A escrita itálica ou bastarda era adotada pelos calígrafos do século XVII. De modo geral, a escrita bastarda era muito mais clara e legível do que a processual ou a encadeada.
A escrita humanista, a mais utilizada a partir do século XVI, e inspirada na carolíngia, teve início em Florença e foi introduzida na Península Ibérica no final do século XV.
 
Até à invenção da imprensa por Gutemberg, em meados do século XV, todos os documentos administrativos e religiosos eram manuscritos.
No século XVI, surgem as escolas de “Arte de Bem Escrever”. A escrita não só deveria ser elegante, mas também legível. A personalização era pouco praticada, mesmo os modelos dos mestres registavam pequenas diferenças de uns para os outros. As letras eram inclinadas para a direita, com laços e floreados.
O ensino da escrita, a partir dos séculos XIX e XX, baseou-se especialmente na psicofisiologia da criança, mas não era entendida como um processo psicodinâmico ativo.
A partir de 1882, foi decretado o uso da Cartilha Maternal, de João de Deus, precursora de várias cartilhas.
No século XX, a escrita inglesa, inclinada para a direita, era ensinada nas escolas comerciais, especialmente nas de Lisboa e do Porto.
A letra francesa, vertical e mais simplificada que a inglesa, instaurou-se em Portugal, a partir de 1930. Este tipo de letra não tinha a mesma qualidade que a praticada nas escolas comerciais, porque os professores primários da altura não tinham a mesma preparação caligráfica dos mestres.
Ultimamente, a Escolar Portugal propôs a utilização de letras ligadas, com formas mais simples e mais lógicas e com espaçamentos corretos, eliminando as ambiguidades derivadas das formas parecidas. Pretende-se evitar os floreados ou ornamentos desnecessários. Propõe-se que os cadernos sejam escritos na mesma fonte em que as crianças aprendem a escrever. Aconselha-se o ensino da caligrafia vertical, por ser mais lógica e facultar o desenvolvimento do ambidestrismo.

04/01/13

Escrita e perfil psicológico da Irmã Lúcia


Lúcia de Jesus dos Santos, nasceu em Aljustrel, Fátima, a 28.03.1907 e faleceu em Coimbra, a 13.02.2005. Era a mais nova de sete  irmãos. Quando tinha 10 anos, estando em companhia dos dois primos Francisco (9 anos) e Jacinta (7anos), apareceu-lhes um Anjo, Nossa Senhora e o Menino Jesus.

Carta sobre o 3º segredo
Lúcia viveu uma vida isolada. Em1921, entrou nas irmãs doroteias (Porto e Tui). Em 1946, entra para as carmelitas descalças (Coimbra), onde veio a falecer aos 98 anos.

A carta, sobre a terceira parte do segredo, escrita em 03.01.1944 e dirigida ao bispo de Leiria, quando Lúcia tinha 37 anos, foi o documento examinado para a caraterização psicológica de Lúcia.

A escrita de Lúcia é organizada, clara, proporcionada, caligráfica, angulosa e inclinada. Os finais das palavras são prolongados (gesto do subjetivismo). A pressão é firme. O espaço entre palavras é pequeno. A velocidade é lenta. Os ovais encontram-se fechados e, por vezes, com fecho duplo. A direção da linha apresenta-se horizontal. A ligação entre as letras é longa, angulosa e em diagonal ascendente. Outro gesto tipo que se evidencia é o prolongamento da letra minúscula “h”.

Em síntese, Lúcia revelava uma grande energia psíquica e capacidade de resistência. Era prudente, cautelosa e reservada. Tendia para atitudes de firmeza, de rigidez e de severidade. Valorizava a tradição. Possuía mais tendência para o formalismo, para o autocontrolo, para a obediência às normas do que para a criatividade e para a rebeldia. O poder de intuição e de introspeção predominava sobre o da razão.