10/09/18

A grande viagem de uma assinatura



Um processo num tribunal de Macau aguardava há muito tempo por uma segunda perícia sobre uma assinatura contestada. Uma primeira perícia realizada por peritos locais não satisfazia algumas das partes envolvidas.
Os advogados da pessoa suspeita de ter falsificado a assinatura não se conformaram com o primeiro exame pericial. Haveria que recorrer a um gabinete que conseguisse desmontar os critérios que conduziram a conclusões julgadas contraditórias. Como em Macau haveria poucos peritos a quem recorrer, a escolha recaiu sobre um perito português e lá fui solicitado a enfrentar o desafio.
Um relatório bem fudamentado, mais objetivo e circunstanciado, poderia prevalecer na decisão do tribunal.
A possível audição por videoconferência ou por carta rogatória, atendendo à distância a que o Porto se encontra de Macau, foi rejeitada pelo tribunal. O resultado foi a deslocação, propositadamente, a esta cidade.
Numa sessão específica do tribunal, pude apresentar o meu depoimento, em língua portuguesa, com tradução simultânea para chinês, porque um dos juízes não dominava a língua de Camões. Durante a mesma sessão tive a oportunidade de observar o original da assinatura contestada e projetar em direto, num ecrã, os traços grafologicamente mais pertinentes que me permitiram estabelecer o confronto entre a assinatura contestada e as autênticas.
Não sei  se a argumentação que constituiu a minha tese terá sensibilizado o tribunal. O objetivo era ajudar na reposição da verdade, com base no grau de probabilidade a que os documentos que me foram apresentados me conduziram.
Nas viagens de ida e volta de avião percorri cerca de 22.000 quilómetros e demorei perto de 20 horas para cada lado. Um percurso muito longo, mas incomparável com as demoradas deslocações por mar feitas pelos antigos descobridores portugueses para administrarem esta cidade, durante mais de 400 anos, agora, região administrativa especial da República Popular da China.
Entre o fuso horário de Macau e o  de Lisboa há uma diferença de sete horas. Quando na cidade do Santo Nome de Deus de Macau são as quatro horas de tarde, em Portugal ainda são as nove horas da manhã, ou seja, quando os tribunais estão a abrir em Portugal já estão a fechar na antiga colónia portuguesa. 
Afonso Sousa

09/08/18

Grafologia e neurociências


Extrato de carta, presumívelmente, falsificada da irmã Lúcia 
Os movimentos musculares de extensão (de baixo para cima), de flexão (de cima para baixo), de abdução (da esquerda para a direita) e de adução (da direita para a esquerda) estão na base de qualquer traçado gráfico.
O cérebro, enquanto central do sistema nervoso, tem-se desenvolvido e adaptado ao longo de milhões de anos, partindo dos elementos mais simples para os mais complexos.

A aprendizagem da escrita não se processa de modo instantâneo e momentâneo, mas por etapas sucessivas e progressivas, constituídas por séries de movimentos e de interações das diversas estruturas do indivíduo como um todo, começando pelas mais simples e avançando pelas mais complexas.
A escrita, considerada como ato mental, não prescinde das suas raízes biológicas, pois a própria mente é resultante da concretização de ações levadas a cabo por uma complexa e delicada rede de estruturas orgânicas, musculares, nervosas, emocionais e cognitivas. Estruturas essas que funcionam como um todo, estando de tal modo interligadas que não são passiveis de fracionamento, sem o risco de perderem a sua identidade e o seu significado.
Existe uma contínua interatividade entre cérebro e escrita, em que esta é condicionada pela maturação cerebral e aquele se estimula e se fortalece com a prática da escrita.
A escrita, quando evolui positivamente, reflete harmonia e equilíbrio por parte do escrevente, quando regride, devido a fatores patogénicos ou desviantes, espelha o desequilíbrio da personalidade, através de desproporções e desarmonias do enunciado.
Os grafismos consistem, pois, em conjuntos de formas individuais e únicas distribuídas no espaço com determinado ritmo, constituindo marcas significativas, capazes de permitirem a identificação do escrevente e de caracterizá-lo psicologicamente.
Dentro deste âmbito, as caraterísticas opostas de harmonia ou desproporção das formas, de pressão média ou de pressão irregular, de velocidade moderada ou de movimento agitado, de dimensão equilibrada ou desequilibrada, de ordem ou de desordem, refletirão, com certeza, emoções e sentimentos positivos ou negativos próprios do escrevente e que este dificilmente conseguirá disfarçar.
A escrita (letras ou algarismos), redigida sob as formas manual, tipográfica ou digital, inventadas e desenvolvidas pelo homem, constituem uma ferramenta essencial que permanecerá viva enquanto estiver intrinsecamente ligada ao seu progresso e bem-estar da humanidade.
O suporte ou a forma em que os carateres são apresentados pode variar, mas o papel da escrita na evocação e na memória permanentes de experiências, de eventos e de invenções constituirá um dos principais alicerces das culturas e das civilizações.
A grafologia, ao distinguir os registos falsos dos autênticos, assume uma função importante na confiança na escrita como impulsionadora do desenvolvimento das relações sociais.
                            Afonso Sousa

16/05/18

“Preconceitos” no exame grafológico



 
O grafólogo, como outros profissionais das ciências humanas, dificilmente se despe por completo das suas expetativas e da perceção imediata que lhes proporcionam os grafismos em análise. 
Texto de Leonardo da Vinci: uma escrita diferente de um autor invulgar

Na caraterização de uma personalidade através da escrita e, especialmente, na perícia da escrita manual, a atitude mais incorreta seria pensar: “Eu estou certo, os outros estão errados”. Procedendo deste modo, a sua atitude mental fá-lo-ia esquecer que esta ciência não é exata e que ele é capaz de errar ou de acertar tanto ou mais do que outros.
O grafólogo, após ter conhecimento, que determinado documento foi elaborado por um indivíduo, supostamente, homicida, terá tendência a valorizar determinadas marcas que costumam ser encontradas num serial killer, podendo, porém, tratar-se de uma pessoa sociável e eticamente bem formada, que terá agido, ocasionalmente, em legítima defesa.   
Compete-lhe inventariar e valorizar de igual modo as diferenças e as semelhanças, colocando-as, equitativa e ponderadamente, nos pratos da balança, antes de avançar para conclusões precipitadas, e evitando a sobrevalorização das diferenças em detrimento das semelhanças ou vice-versa.
As conclusões não devem dar um passo à frente das fundamentações e, qualquer conclusão, que seja hoje considerada definitiva, pode deixar de o ser amanhã, logo que sejam encontradas novas provas documentais mais pertinentes que contrariem as primeiras.
O cérebro recebe e interpreta os vários sinais gráficos em função dos próprios sentimentos e emoções, deixando pouco espaço para as variantes que não se enquadrem dentro das suas expetativas: expetativas negativas “geram” marcas negativas e expetativas positivas favorecem os traços positivos.
Se não é possível a libertação completa da própria subjetividade,  o mais importante é que esses vestígios ou pegadas sejam assumidos como tal.
Apesar da coloração subjetiva por parte do grafólogo, a experiência pessoal e o senso comum relembram-nos a cada momento que o perfeito conhecimento de nós próprios e das nossas tendências é um dos melhores suportes para a realização de uma boa análise e da extração duma conclusão mais lógica e equilibrada.
Todos os grafismos são diferentes, mesmo se saídos do mesmo indivíduo e todos são únicos se forem realizados por indivíduos diferentes, porque cada escrevente como ser humano tem uma identidade própria e uma entidade específica.

09/11/17

A propósito das assinaturas de dois políticos portugueses



A assinatura reflete como o sujeito se vê a si mesmo (a sua autoimagem), perante o seu meio ambiente, constituindo um marco identificativo do próprio eu em relação ao ambiente.
As assinaturas a seguir apresentadas pertencem à ex-ministra da Administração Interna, Maria Constança de Sousa e ao primeiro-ministro, António Costa.
As assinaturas constam, respetivamente, na carta do pedido de demissão da ex-ministra, em 17 de outubro de 2017 e na nota à Comunicação Social do primeiro-ministro, em 18 de outubro de 2017.


Assinatura de Maria Constança de Sousa


 
O pedido de demissão foi apresentado na sequência da tragédia dos graves incêndios que se desencadearam na zona centro do país.

Um relatório independente apontava para graves falhas  a nível de recursos e proteção civil.


Assinatura de António Costa

De um modo superficial e imediato, o que nos revelam as assinaturas destes dois políticos?

Comparando as duas assinaturas, verificamos que a primeira é constituída pelas letras iniciais maiúsculas que formam o nome da ex-ministra, enquanto a segunda assinatura contém todas as letras do nome por que é tratado o primeiro-ministro.

As maiúsculas iniciais da ex-ministra são apresentadas, isoladamente, sob a forma de linhas simples e retas, verticais e horizontais, evidenciando-se a formação de três ângulos retos. A autora aparenta ter uma personalidade rigorosa, objetiva e dedicada, com escassa habilidade política (no mau sentido do termo).
O nome e o apelido de António Costa apresentam carateres irregulares e decrescentes, formando figuras semelhantes a cunhas, em que não faltam laços, ganchos e serpentinas. São sinais de uma personalidade taticamente hábil, capaz de dialogar e de reverter o discurso a seu favor.
Aqui, o elemento feminino não evidencia as clássicas linhas curvas da feminilidade, nem o elemento masculino apresenta determinadas marcas próprias da masculinidade, como a rigidez e angulosidade do traçado.

Adverte-se que a análise de uma simples assinatura descontextualizada ou não integrada num texto manuscrito pelo assinante, como se verifica neste caso, não permite extrair uma informação precisa nem completa das tendências dos seus autores.

https://www.facebook.com/CentroGrafologiaDocumentospiaForense/posts/1549714125105220?notif_id=1510266067573365&notif_t=like

18/10/17

Escrita semelhante de gêmeas monozigóticas


Investigadores de várias ciências, inclusive das ciências gráficas, têm-se pronunciado sobre as semelhanças e as diferenças existentes nas expressões  dos gémeos, especialmente dos homozigóticos, quase confundíveis fisicamente.
As expressões gráficas, que traduzem múltiplos aspetos essenciais dos sujeitos escreventes, não poderiam apresentar resultados divergentes ou contraditores. Pelo que a grafologia reconhece, de facto, a existência de diferenças essenciais de uma escrita para outra.
Tais diferenciações não são, todavia, uniformes em todos os gémeos, podendo apresentar níveis diversos de similitude ou de divergência.
Estes dois curtos extratos pertencem a duas irmãs gémeas monozigóticas, com cerca de 40 anos de idade. Foram escritos em ambiente de boda de uma delas. Cada uma escreveu o respetivo texto, sem observar a escrita da outra. Ambas estavam muito animadas, como se se tratasse do casamento das duas.
As acentuadas semelhanças físicas das autoras, à vista de todos, e similares tendências psicológicas, reconhecidas pelas próprias, estão comprovadas por determinadas caraterísticas dos grafismos, nomeadamente, no que respeita a organização, a forma, a pressão, a velocidade, a ligação e a dimensão dos carateres.
De facto, observamos, nos extratos, diversos pormenores semelhantes, nomeadamente, no predomínio da zona média da escrita, na forma como iniciam os “mm” e respetivas arcadas, no movimento sinistrogiro do “N” maiúsculo, na verticalidade das hastes dos “tt” e no modo rasteiro como são cortadas pelas barras em golpe de sabre.

Em súmula, trata-se, portanto, de duas personalidades distintas, mas com um similar nível de energia vital e uma equivalente tendência para a extroversão, acompanhadas de uma grande intuição e de uma forte recetividade análogas.

26/07/17

Do desenho à escrita


“Desenhos” de Joana, nome fictício, desde os dois anos de idade.
As primeiras garatujas constituem uma verdadeira linguagem que manifesta a autêntica realidade interior.
Os desenhos de Joana como os de qualquer criança vão traduzindo o seu desenvolvimento, o grau de maturidade e o equilíbrio emocional.


A partir dos dois anos, a criança vai apreendendo a ordem gráfica e formal do traçado. As formas circulares são uma espécie de delimitação da sua identidade, do seu mundo.
A coordenação óculo-manual e da motricidade fina para a atividade gráfica do desenho e da escrita passa por um longo processo de desenvolvimento.







Cada gesto tem para a criança determinado sentido que para o adulto pode parecer sem significado. Um único desenho pode mesmo ter várias interpretações, porque a criança encontra-se num processo acelerado de desenvolvimento e, ainda, não existe nela a distinção clara entre lógica e emoção, entre sentimento e inteligência. A Joana fala de si mesma e da sua relação com o ambiente, através do desenho.

As figuras desenhadas sob a forma de rabiscos, presentes em todos os ambientes culturais, são uma fonte de prazer e desenvolvem o conhecimento sensório-motor e simbólico da criança.
A folha em branco constitui o símbolo do ambiente que a rodeia e do seu mundo.



A partir dos três anos, as figuras desenhadas começam a ser mais coordenados e mais interligadas com o meio circundante, chegando a atribuir-lhes nomes.






Depois dos quatro anos de idade, a evolução gráfica caminha a par e passo com o desenvolvimento afetivo e percetivo. Na figura humana, aparecem os braços e as pernas, em forma de riscos que partem, inicialmente, da cabeça.






A criança, de qualquer cultura ou nacionalidade, servindo-se do mais diversos utensílios e materiais de suporte, aprende a desenhar figuras próprias do seu meio ambiente como casas, árvores, pessoas ou animais. O pensamento evolui com o desenho e desenho aperfeiçoa-se com o pensamento.


A pressão exercida sobre o suporte, as cores escolhidas, a dimensão do desenho, a continuidade ou as interrupções do traçado ou a posição das figuras constitui uma ferramenta importante para a compreensão da interioridade da criança. 


Da sucessiva evolução de formas e de movimentos realizados por Joana resulta este texto capaz de transmitir uma mensagem linguística e grafológica. 

25/06/17

Escrita manual e ao computador

Extrato de uma carta de um Bispo de Cochim (1787)

Com o desenvolvimento das novas tecnologias, a escrita à mão perdeu o seu domínio. Os écrans táteis e o teclado dos computadores substituíram em grande parte a utilização da caneta. Os postais e as cartas, no suporte papel, foram, quase totalmente, dominados por mensagens em formato digital, onde copiar, colar e enviar se processam com uma velocidade nunca antes imaginável. 


As pastas de arquivo estão a deixar de ser materiais e concretas, tornando-se virtuais. A evolução extraordinária dos meios de comunicação veio, de facto, facilitar e revolucionar a aproximação dos factos e das pessoas. O mundo transformou-se numa aldeia global.
Perante esta transformação eletrónica, valerá a pena continuar a aprender e a ensinar a escrita manual?
Na Finlândia e em alguns Estados da América do Norte, foi abolida a obrigatoriedade da escrita cursiva, mantendo-se apenas a letra de imprensa. Justificam esta posição pela dificuldade de aprendizagem e desperdício de tempo que seria útil  para outras atividades didáticas.
As novas tecnologias são sempre bem-vindas em qualquer atividade ou domínio do saber, porém, a escrita eletrónica não pode substituir, mas complementar a escrita à mão.
O aparecimento e a utilização da escrita manual, há milhares de anos, provocaram uma revolução semelhante à que hoje se verificou com a eletrónica. As memórias, os conhecimentos, as descobertas e as invenções dos séculos passados teriam desaparecido e impediriam o progresso e bem-estar da humanidade, caso não tivessem sido fixadas, graficamente, em diversos materiais.
Investigadores das neurociências, da medicina, da psicologia, da pedagogia e da grafologia são unânimes no reconhecimento de múltiplas vantagens na continuidade do ensino e utilização da escrita manual, refutando a substituição da caneta pelo teclado.
Entre os principais benefícios da escrita manual, em relação à do teclado, mencionam:
·       desenvolvimento das capacidades motora, percetiva e cognitiva,
·       fortalecimento da coordenação óculo-manual,
·       maior facilidade na perceção das letras e  no domínio da leitura,
·       melhoria da concentração e da memória,
·       conjunto de caraterísticas artísticas e criativas que tornam único o seu autor.

Na era digital, a escrita manual não pode perder o seu lugar nem ser considerada obsoleta, porque se trata de um produto essencialmente humano, resultante de uma série de movimentos coordenados pela mente, pela vista e pela mão, que constituem, ao mesmo tempo, uma tridimensionalidade física, intelectual e emocional.