09/01/13

Paleografia versus análise da escrita manual


Podemos colocar as questões: Em que carateres foi escrito o código de Hamurabi? Como seria a escrita de Jesus? Em que tipo de letra foram escritos os Evangelhos?  
Para responder a qualquer uma destas perguntas, para distinguir documentos falsos de documentos autênticos ou para caraterizar determinada personalidade, é conveniente conhecer previamente o modelo caligráfico da época, visto que ao longo da história existiram vários padrões de escrita.
            Escrita Uncial
A escrita uncial (letras manuscritas maiúsculas) praticava-se com os alfabetos latino e grego, entre os séculos III e VIII. Corresponde a uma evolução tardia das maiúsculas romanas. O texto aparece em contínuo e as palavras não se separam nitidamente. Entre os séculos VIII e XIII, foi empregada em títulos e capítulos de livros, tendo sido gradualmente substituída pela minúscula carolíngia.
 
Nos séculos V e VI, as letras unciais sofreram várias alterações, especialmente com o aparecimento de hastes ascendentes e descendentes, dando origem à escrita semiuncial.
 
A escrita carolíngia (séculos IX-XII), iniciou-se no reinado de Carlos Magno, rei dos Francos e espalhou-se por quase toda a Europa.
 
      Extrato da Carta de Pero Vaz de Caminha
 
A escrita gótica (séculos XII-XVI), derivada da escrita carolíngia, corresponde a um tipo de letra angulosa e com linhas quebradas. Este estilo continuou a ser usado na Alemanha até ao século XX.
A escrita gótica cortesã, utilizada nas Cortes, em meados do século XIV, tinha menos corpo que a atual e era mais ligada e mais apertada. Generalizou-se a partir de meados do século XVI.
 
A escrita gótica processual, utilizada nos documentos judiciais e processos públicos, era uma degeneração da gótica cortesã. Maior e mais rápida que a cortesã, continha muitos enlaces e ornamentos. O espaço entre palavras era irregular.
A escrita gótica encadeada era empregada pelos notários, escrivães e tabeliães, entre os séculos XVI e XVII. As letras e as palavras ligadas dificultavam a leitura, chegando a existir linhas inteiras sem que fosse levantada a caneta do papel.
A escrita itálica ou bastarda era adotada pelos calígrafos do século XVII. De modo geral, a escrita bastarda era muito mais clara e legível do que a processual ou a encadeada.
A escrita humanista, a mais utilizada a partir do século XVI, e inspirada na carolíngia, teve início em Florença e foi introduzida na Península Ibérica no final do século XV.
 
Até à invenção da imprensa por Gutemberg, em meados do século XV, todos os documentos administrativos e religiosos eram manuscritos.
No século XVI, surgem as escolas de “Arte de Bem Escrever”. A escrita não só deveria ser elegante, mas também legível. A personalização era pouco praticada, mesmo os modelos dos mestres registavam pequenas diferenças de uns para os outros. As letras eram inclinadas para a direita, com laços e floreados.
O ensino da escrita, a partir dos séculos XIX e XX, baseou-se especialmente na psicofisiologia da criança, mas não era entendida como um processo psicodinâmico ativo.
A partir de 1882, foi decretado o uso da Cartilha Maternal, de João de Deus, precursora de várias cartilhas.
No século XX, a escrita inglesa, inclinada para a direita, era ensinada nas escolas comerciais, especialmente nas de Lisboa e do Porto.
A letra francesa, vertical e mais simplificada que a inglesa, instaurou-se em Portugal, a partir de 1930. Este tipo de letra não tinha a mesma qualidade que a praticada nas escolas comerciais, porque os professores primários da altura não tinham a mesma preparação caligráfica dos mestres.
Ultimamente, a Escolar Portugal propôs a utilização de letras ligadas, com formas mais simples e mais lógicas e com espaçamentos corretos, eliminando as ambiguidades derivadas das formas parecidas. Pretende-se evitar os floreados ou ornamentos desnecessários. Propõe-se que os cadernos sejam escritos na mesma fonte em que as crianças aprendem a escrever. Aconselha-se o ensino da caligrafia vertical, por ser mais lógica e facultar o desenvolvimento do ambidestrismo.

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