30/04/14

Escrita de Vasco Graça Moura


Vasco Graça Moura, pessoa erudita, falecido aos 72 anos, licenciou-se em Direito, mas dedicou-se, intensamente, à escrita como ensaísta, poeta e tradutor.
Observando este pequeno texto escrito, em 1978, quando Graça Moura tinha 36 anos, conseguem-se evidenciar algumas caraterísticas da sua personalidade.
A sua escrita, impulsionada para frente, ligeiramente, ondulada, ritmada e rápida, indicia vivacidade de pensamento e de ação. Os múltiplos sinais de criatividade evidenciam-se, especialmente, na forma como estabelece a ligação entre as letras e traça as barras de alguns “tt”. O “gesto da independência”, patente no modo como traça a haste da letra “p”, tipo antena, costuma associar-se ao desejo de independência. Manifesta-se, também, o seu poder de conciliação, devido ao predomínio dos movimentos arredondados em detrimento dos angulosos.
A assinatura simples, semelhante ao texto e sem traços desnecessários, revela sinceridade e coerência em relação aos outros e consigo próprio. 
Vasco de Graça Moura remou contra a maré, na sua oposição acérrima ao último Acordo Ortográfico.
Foi um poeta original e um tradutor invulgarmente abrangente, traduzindo clássicos, como Shakespeare, Dante, Petrarca, Lorca e Racine.
Entre as distinções recebidas contam-se o Prémio Fernando Pessoa, a Coroa de Ouro do Festival de Struga e o Prémio Nacional de Tradução, este atribuído, em 2007, pelo Ministério da Cultura italiano.
 Poema de V. G. Moura dedicado à Mãe - “Lâmpada votiva 3” (2002):
“Agora deu-se à terra o que é da terra
e as flores amontoam-se em sinal
de ser fugaz a vida, sobre a cal.
e enquanto cada dia desaferra,

com o seu sopro bravio virão ventos
e as gaivotas, levando-lhes outras vozes,
uivos do mar, pios, metamorfoses.
nada ela escutará nesses momentos.

haverá fumo e fogo, deslembranças,
ecos, recordações, nuvens, ruídos,
outros cortejos tristes, recolhidos,
ali por perto hão-de brincar crianças

num jogo descuidado. um grupo vence-o.

mas fica a minha mãe posta em silêncio.”

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