10/06/11

O ritmo da escrita, L. Klages



Imagem de Augusto Vels (P enorme, de Pier )

Ludwig Klages (1872-1956), filósofo, psicólogo e grafólogo alemão, introduziu o conceito de ritmo na análise da escrita, no modo como aparece distribuída a mancha de tinta na folha.

O mundo na sua globalidade é, para Klages, um processo rítmico. Mas o ritmo não é pura repetição.
Assim, como existe a polaridade rítmica na noite e no dia, na altura e na profundidade, no verão e no inverno, no nascimento e na morte, existe na própria vida.

Para este autor, o ato da escrita revela tudo o que ocorre na mente e no físico do escrevente, bem como as experiências vivenciadas. Mas, quando se presta atenção à escrita, diminui a naturalidade e os impulsos espontâneos, deixando a escrita de expressar toda a sua originalidade.

O ritmo é a manifestação primordial da vida. Ele distingue-se de compasso (cadência métrica), porque este é mecânico, não tem vida. Assemelha-se, antes, às ondas do mar, com transformações impercetíveis de forma e de duração, com movimentos semelhantes, mas não idênticos.

O ritmo da escrita é perceptível por intuição imediata, por uma intuição geral e objetiva. Não interessam a regularidade nem a irregularidade dos elementos gráficos em si mesmos, mas a relação íntima que existe entre eles: a originalidade, a espontaneidade. Pois, é tão importante a palavra como o espaço que a rodeia, constituindo aquela com este não um conflito, mas um equilíbrio.
O ritmo está tão presente num texto inteiro como na mais pequena pinta dum i.

A escrita é tanto mais rítmica quanto mais for pessoal, natural, espontânea e involuntária. Ou seja com variações periódicas, sem grandes perturbações, onde haja uma proporcionalidade, não matemática, mas diferenciada.

Klages até aconselha a inverter a folha e a observar a escrita assim invertida, para melhor captação da euritmia e arritmia, sem que o grafólogo se deixe levar por preconceitos.

Porém, tanto a proporção como a desproporção dos traços gráficos podem assumir significados opostos, porque a força vital e instintiva da pessoa é antagonista.

Os traços vivos, a originalidade, a proporcionalidade e uma boa distribuição da mancha de tinta  conduzem, segundo Klages, ao mais elevado grau do nível da Forma (formniveau), que não se confunde com o conceito forma de Jules Crépieux-Jamin.

Qualquer excesso (escrita demasiado estreita, demasiado larga, demasiado comprida)    perturba o ritmo. A monotonia (excesso de regularidade) também prejudica o ritmo.
               Nenhum traço da escrita considerado isoladamente se pode repetir matematicamente.
Concluímos que o movimento escritural é  produzido por um encadeamento de movimentos de dedos,
pulso, braço e antebraço  que se materializa em caraterísticas pessoais da escrita, sendo esta o resultado
 concreto e permanente do movimento gráfico pessoal. 

A escrita acompanhou a evolução da sociedade e dos estilos: no período gótico, tornou-se alta e fina, como reflexo da espiritualidade, na época clássica ficou mais rígida e mais fria e no período barroco, adornou-se e complicou-se.
Como exemplo prático da correspondência sujeito/escrita, podemos observar, supra, na  maiúscula enorme e ornamentada, provavelmente, o amor-próprio, a imaginação e o orgulho do escrevente.

2 comentários:

Rafael Souza disse...

No que concerne a polaridade dos diferentes momentos do homem e ao seu estado de alma ao longo de um dia, semana ou mês e ainda os fatores endógenos ou exogónes podem modificar-lhe a grafia e o comportamento transacto do indivíduo. Logo a análise grafológica será mais dificil decifrar.
Observar o ritmo da escrita atrvés de uma simples pinta de um i, como atesta O Filosofo L. Klages, Creio que não chegará a grande metricidade!

Afonso Henrique Maça Sousa disse...

Tem razão, caro leitor.
Mas Klages quando se refere a uma pinta do "i", nunca o faz isoladamente. Considera que também a pinta dum "i" obedece a determinado rítmo e dentro desse ritmo entra a própria pinta como gesto mínimo da escrita.
Tudo o que se escreve e se faz é realizado, de facto, com a vitalidade específica de cada indivíduo. Tirar conclusões objetivas sobre a atuação individual é que se torna mais complexo.