15/10/10

Perícia sobre uma agenda*

Tendo surgido dúvidas sobre a autoria dum escrito, a análise da agenda pessoal pôde tornar-se esclarecedora do caso.

Trata-se do caso do senhor Alfredo que autofalsificara a própria assinatura e o texto em que se comprometia a pagar as obras de remodelação da casa que tinha alugado ao senhor Miguel.

O inquilino registou numa folha duma pequena agenda o seu compromisso e entregou-o ao senhorio. Quando as obras já estavam concluídas, o senhor Alfredo escusou-se a pagar fosse o que fosse, dizendo que não tinha nada a ver com os custos da reparação. Então, o senhor Miguel exibiu-lhe o papelito que lhe fora passado pelo inquilino antes de iniciarem as reparações.

O Senhor Alfredo negara ter sido ele a assumir tal comprometimento e desafiou o senhorio a fazer prova do contrário. O senhor Miguel recorrer a um perito calígrafo, que tendo analisado o texto questionado e outros autênticos, não conseguiu atribuir-lhes a mesma autoria.

Sempre à procura de outras pistas, o perito notou que o senhor Alfredo possuía uma agenda com formato semelhante ao do escrito contestado e resolveu pedir-lha – pedido que foi, de imediato, correspondido. Com seu olhar clínico, o perito folheou a agenda e deparou com marcas latentes deixadas numa folha em branco. Perguntou ao senhor Alfredo se a agenda era de seu uso pessoal e exclusivo, ao que este respondeu afirmativamente. O perito pediu ao inquilino que o acompanhasse até ao seu gabinete e aí fez-lhe ver que os sulcos latentes mais visíveis da folha da agenda correspondiam exactamente às palavras do escrito negado.



De facto, bastou destacar que a palavra inicial “concordei” era precisamente igual ao sulco deixado na folha subjacente, quanto aos géneros forma, dimensão, inclinação e ligação.

E, ainda, a rubrica final, que o senhor Alfredo disfarçara, apesar de conter cinco ângulos, um bucle e um traço final sobrepunha-se, exactamente, sobre as marcas latentes.

Confrontado com sinais tão evidentes deixadas pela forte pressão do seu punho, o senhor Alfredo não teve outra alternativa senão admitir perante o perito que se equivocara e que era ele o verdadeiro autor do escrito questionado.

Está a ver, caro leitor, como uma simples folha em branco  pode  apanhar em flagrante um  esperto falsificador!?

*Nomes fictícios

1 comentário:

José António Passos disse...

Olá Afonso

Os meus parabéns por este excelente blog. Fiquei impressionado com a dimensão e qualidade do mesmo. Muito completo.
Um abraço.

José António Passos