Sabemos que, no passado, o esquerdino era considerado um desajeitado, um canhoto, que se adaptava com dificuldade ao mundo feito à medida do destro. Esta discriminação negativa, baseada em preconceitos e superstições ligados à utilização da mão esquerda, era muito comum nas várias civilizações.
A história, porém, ensina-nos que o esquerdino é diferente,
mas não inferior. Temos exemplos de esquerdinos célebres, como Leonardo Da
Vinci, Albert Einstein, Bill Gates, Barack Obama e muitas outras personalidades
que se destacaram no campo das ciências e das artes.
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Atualmente, a criança, com tendência a utilizar, predominantemente, a mão
esquerda, contrariamente ao que sucedia no passado, não é contrariada, sob pena
de prejudicar a qualidade da sua escrita e o sucesso educativo.
É, especialmente, no período pré-escolar e no início da aprendizagem da
escrita que se consolida a opção pela mão predominante. A criança começa por apresentar uma maior destreza com uma mão do que
com outra para escrever e para realizar as restantes atividades.
O movimento da escrita, nas línguas ocidentais, processa-se da
esquerda para a direita e, por esse motivo, torna-se mais difícil para o
esquerdino, que sente dificuldade em arrastar a caneta, devido à tensão dos
músculos adutores e abdutores, tendo que fazer maior esforço que o destro para conseguir
a mesma habilidade grafomotora.
Seria mais natural para o esquerdino que o movimento da
escrita se processasse da direita para a esquerda, em vez da esquerda para a
direita. O problema fica reduzido ensinando ao esquerdino as técnicas mais apropriadas
da inclinação da folha para a esquerda, da posição da mão e da preensão do instrumento
de escrita, para não quebrar o ritmo, nem esconder os carateres que vai
acabando de executar.
Os esquerdinos estão presentes em todas as culturas, mas
como são uma minoria, a maior parte dos instrumentos são concebidos a pensar
nos destros, como, por exemplo, uma torneira que fecha para a direita ou os
ponteiros do relógio que também se deslocam no mesmo sentido.
Os casos de ambidestrismo, em que o escrevente utiliza, com
a mesma facilidade, qualquer das mãos, são pouco vulgares, mas, na prática,
estes sujeitos tornam-se mais versáteis para certas atividades que requerem as
duas mãos ou os dois pés (toque de instrumentos musicais ou desporto).
A principal causa do sinistrismo parece ser de origem
genética, associada ao predomínio do hemisfério direito sobre o esquerdo,
contrariamente aos destros em que o hemisfério esquerdo predomina sobre o
direito.
Estudo realizado
Na
pesquisa que realizei sobre a velocidade da escrita, junto dos alunos do 1º ano
ao 12º ano de escolaridade, tomei nota de todos aqueles que escreviam com a mão
esquerda.
Os alunos
foram convidados a escrever a frase “ As nossas palavras são como um cristal”,
durante um minuto, à velocidade normal e, a seguir, à velocidade máxima durante
outro minuto.
Num
universo de 2 427 alunos testados (1 215 meninas e 1 212 rapazes), encontrei 121
indivíduos esquerdinos (47 meninas e 74 rapazes), correspondendo a uma
percentagem de 3,9% no sexo feminino e de 6% no sexo masculino.
Contabilizei
apenas como esquerdinos aqueles alunos que, durante a realização do teste de
velocidade da escrita, escreviam com a mão esquerda. Não me questionei sobre a
existência de possíveis casos de esquerdinos, contrariados ou ambidestros, que,
porventura, pudessem existir.
Géneros e subgéneros observados:
Os géneros
observados foram: forma, dimensão, direção, inclinação,
ligação, margem esquerda, tipo de carateres, comprimento e velocidade.
Em relação à forma, o estudo incidiu apenas sobre a escrita arredondada e angulosa.
Além destes subgéneros, haveria outros a considerar, como a arcada e a filiforme,
mas, com esta pesquisa, pretendo, apenas, observar qual será a escrita mais
angulosa, se a dos destros ou a dos esquerdinos. Na hipótese de a escrita dos
esquerdinos se apresentar mais angulosa do que a dos destros poderá significar que
será importante conhecer a lateralidade do escrevente antes da caraterização da
sua personalidade.
A dimensão dos carateres é classificada apenas em três subgéneros: pequenos,
médios e grandes. Neste item pretende-se concluir se a lateralidade terá alguma
influência na dimensão das letras.
No que respeita à direção da linha de base, a
classificação abrange quatros subgéneros: ascendente, horizontal, descendente e
ondulada.
Coloca-se a hipótese: Quem terá maior
tendência para oscilar a linha de base, os esquerdinos ou os destros?
A Inclinação das letras foi estudada em três subgéneros: vertical,
inclinada e invertida.
Quais são os escreventes com maior
tendência para endireitar, inclinar ou inverter as letras, os esquerdinos ou os
destros?
Em relação à ligação, o estudo incidiu sobre os subgéneros: ligada, agrupada e desligada.
A escrita considera-se ligada, quando todas as letras da palavra são feitas sem
levantar a caneta, exceto a barra do t ou a pinta do i. Considera-se agrupada
quando as letras estão unidas em grupos de duas ou de três. E considera-se
desligada, quando todas as letras da palavra estão desunidas.
Será que esquerdinos e destros
apresentam graus de ligação diferentes?
Em relação à margem, considerei apenas a
esquerda (pequena, média ou grande), por ser a mais significativa na
organização espacial. Entende-se por margem pequena a que vai de 0 a 1,5 cm,
por margem média a que vai de 1,5 a 3 cm e grande a que tem mais de 3 cm.
Coloca-se a hipótese: Uma vez que,
para os esquerdinos, o avanço da escrita da esquerda para a direita não é uma
tendência natural, podemos interrogar-nos: os esquerdinos deixarão uma margem
mais pequena do que os destros?
Quanto ao tipo de carateres, distingui o cursivo e o tipográfico.
Analisei a extensão, medindo o comprimento em milímetros da frase “As nossas
palavras são como um cristal”.
A extensão ou a concentração dos
grafismos são significativas para a caracterização da personalidade e,
portanto, será interessante saber se a lateralidade terá alguma influência
sobre a maior ou menor ocupação do espaço.
A velocidade foi medida pela quantidade de letras, legíveis, feitas
por minuto, à velocidade máxima.
Coloca-se a questão: Os
esquerdinos serão mais lentos ou mais rápidos que os destros?
Quando dizemos que uma escrita é
rápida ou lenta, temos que ter presente um padrão de referência. Ora o estudo por
mim realizado com 2 427 indivíduos teve, também, como finalidade encontrar
uma média da velocidade de escrita dos estudantes portugueses, que poderá ser
aperfeiçoada e aferida por outras pesquisas.
Análise dos resultados
Forma
O desenho das formas, bem como os
outros géneros, iniciam-se no primeiro ano de escolaridade e evolui até à fase da
personalização da escrita.
Comparando, quanto à angulosidade,
a escrita dos esquerdinos com a dos destros, especialmente em relação aos ovais
e às letras mm e nn, verifica-se que
os esquerdinos têm uma escrita mais angulosa do que os destros.
Enquanto nos esquerdinos, a
percentagem de carateres angulosos se situa em 22,4%, nos destros a percentagem
é de 8,8%.
A escrita arredondada atinge a
percentagem de 78,6% nos esquerdinos e 91,2% nos destros.
Dimensão
A escrita pequena (com 1,5 – 2,5 mm) é a predominante, tanto nos esquerdinos
como nos destros, em todos os níveis etários e nos dois sexos, sendo de 56,8%
nos esquerdinos e 61,8% nos destros.
As diferenças no tamanho médio (entre 2,5 – 3,5 mm) são, igualmente,
insignificantes: 34,3% para os esquerdinos e 33,3% para os destros.
A escrita grande (entre 3,5 – 4,5mm) surge numa percentagem baixa: 8,8% para os esquerdinos e 5% para os destros, mas a diferença entre ambos é significativa.
Constatei que, no primeiro ano, a letra é maior, nos seguintes decresce
e, por volta do 7º ano (cerca de 13 anos de idade), volta a aumentar de novo.
Direção da linha de base
Entre os vários tipos de direção analisados, onde sobressai maior
diferença entre esquerdinos e destros é na linha horizontal, com 15,7% para os
esquerdinos e 24,5% para os destros. A linha ondulada encontra-se em 32,4% de
esquerdinos e em 24,5% de destros. As percentagens de ascendente e descendente são
mais baixas e aproximadas, entre esquerdinos e destros.
Inclinação
Na escrita invertida não se observaram diferenças entre destros e
esquerdinos, tendo sido obtida uma percentagem 14% igual para os dois grupos.
A tendência predominante é para a escrita vertical, com 76,5% nos
esquerdinos e 70,6% nos destros.
Onde se observa maior diferença entre destros e esquerdinos é na escrita
inclinada, com 15,7% dos destros e 9,8% dos esquerdinos.
Em nenhum destes parâmetros, se verifica um aumento ou diminuição com a
idade. De um modo geral, observa-se uma maior tendência para a escrita
invertida no género feminino e para a escrita inclinada, no género masculino, independentemente
da lateralidade.
Ligação
A escrita ligada faz parte do
modelo de ensino, portanto, será natural que no 1º e 2º anos de escolaridade, a
percentagem de escritas ligadas atinja cem por cento, tanto nos esquerdinos
como nos destros. É de realçar que esta posição se inverte entre o 7º e 9º anos,
em que a maior parte das escritas se apresentam desligadas. Esta inversão
deve-se ao facto de os alunos deste nível etário terem rompido com o modelo
escolar.
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Comparando o grau de ligação entre
esquerdinos e destros, as diferenças são pouco contrastantes.
Nos esquerdinos, a percentagem da
escrita ligada é de 58,8% e, nos destros, sobe para 61,8%. A escrita agrupada,
nos esquerdinos, alcança 20,6% e nos destros é de 14,7%. A desligada, nos
esquerdinos, é de 20,6%, nos destros, de 23,5%.
Margem
esquerda
A margem esquerda pequena ocorre menos vezes nos esquerdinos (65,7%) do
que nos destros (79,4%). A margem média aparece em 19,6% dos esquerdinos e
15,7% dos destros. A margem esquerda grande encontra-se em 14,7% dos
esquerdinos e em 4,9% dos destros.
Carateres cursivos e tipográficos
A escrita cursiva faz parte do
modelo caligráfico e manifesta-se, praticamente, a cem por cento nos seis
primeiros anos de escolaridade. As alterações significativas do modelo escolar verificam-se,
apenas com a adolescência, a partir do 7º ano de escolaridade.
Neste item, foram os esquerdinos
que utilizaram os carateres tipográficos em maior percentagem (9,8%), contra
5,9% dos destros. Podemos interrogar-nos sobre estas opções distintas. Será que
os esquerdinos são mais criativos? Ou será devido à maior dificuldade na
execução dos carateres cursivos?
Comprimento ou extensão da frase
No início da aprendizagem, a ocupação do espaço é maior do que nos anos
seguintes: os esquerdinos ocupam, em média, 15,1cm para escreverem a frase modelo e
os destros, 14,2 cm.
Nos anos subsequentes, verifica-se uma diminuição, não sequencial, na
ocupação do espaço. Existe uma ligeira tendência à concentração espacial, após
os primeiros anos de escolaridade, para, posteriormente, na adolescência, o
enunciado voltar a expandir-se.
Comparando os comprimentos do
enunciado entre o género masculino e feminino, independentemente da
lateralidade, constatei que as meninas, em geral, ocupam mais espaço que os
rapazes para escreverem as mesmas palavras, sendo a diferença de comprimento
entre raparigas e rapazes maior do que entre esquerdinos e destros.
O comprimento médio das frases das
meninas é de 13,7 cm, enquanto o dos rapazes é de 12,5cm.
Velocidade da escrita
Comparando
a velocidade de escrita dos esquerdinos com a dos destros, verifica-se que
estes são, tendencialmente, mais rápidos. Os esquerdinos fazem, em média, menos
6,5% de letras por minuto do que os destros.
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Esquerdinos - por ano de escolaridade |
Destros - por ano de escolaridade |
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ano |
fem. |
|
masc. |
|
total |
ano |
fem. |
|
masc. |
|
total |
|
|
1º |
31,7 |
|
47,7 |
|
43,8 |
1º |
48 |
|
46 |
|
47 |
|
|
2º |
92,5 |
|
71,3 |
|
78,3 |
2º |
79 |
|
77 |
|
78 |
|
|
3º |
84 |
|
93,8 |
91,3 |
3º |
98,8 |
|
96 |
|
97 |
||
|
4º |
114 |
|
108 |
|
108 |
4º |
113 |
|
109 |
|
111 |
|
|
5º |
117 |
|
97,5 |
|
109 |
5º |
121 |
|
118 |
|
120 |
|
|
6º |
117 |
|
121 |
|
119 |
6º |
128 |
|
127 |
|
128 |
|
|
7º |
126 |
|
146 |
|
138 |
7º |
147 |
|
147 |
|
147 |
|
|
8º |
152 |
|
155 |
|
153 |
8º |
148 |
|
161 |
|
154 |
|
|
9º |
166 |
|
156 |
|
156 |
9º |
158 |
|
164 |
|
161 |
|
|
10º |
176 |
|
162 |
|
157,4 |
10º |
168 |
|
166 |
|
167 |
|
|
11º |
179 |
|
168 |
|
172 |
11º |
168 |
|
180 |
|
173 |
|
|
12º |
158 |
|
158 |
|
158 |
12º |
174 |
|
185 |
|
179 |
|
|
Fig. 27 - Velocidade dos esquerdinos |
Fig. 28 - Velocidade dos destros |
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Na imagem podemos visualizar melhor
a evolução da velocidade da escrita da totalidade dos esquerdinos e da
totalidade dos destros, ao longo de vários anos de escolaridade.
Conclusões
Do estudo realizado podemos extrair as seguintes conclusões:
·
A percentagem de esquerdinos é mais elevada no sexo
masculino do que no feminino.
·
Não existem sinais claros para afirmar que a
direção da linha é mais sinuosa nos esquerdinos do que nos destros.
·
Não se confirmou a tendência dos esquerdinos para
inverterem mais a escrita que os destros.
·
A ligação é uma constante, especialmente nos
primeiros anos de escolaridade, porque faz parte do modelo escolar. A escrita
dos esquerdinos apresenta um grau de ligação semelhante à dos destros.
·
Quanto à largura da margem esquerda, predomina a
margem grande nos esquerdinos e a margem pequena, nos destros.
·
Na extensão da frase, não se verificaram diferenças
significativas entre esquerdinos e destros, todavia as meninas expandem mais o
enunciado do que os rapazes.
·
Nos primeiros anos de escolaridade quase se não
encontram carateres tipográficos, que são introduzidos mais tarde, após a
interiorização do modelo escolar.
·
Os esquerdinos tendem a ser um pouco mais lentos
que os destros.
·
As crianças na primeira fase da aprendizagem não
imitam exatamente a escrita dos seus mestres, mas, cada uma adapta,
inconscientemente, o modelo às próprias caraterísticas temperamentais.
·
No caso de indefinição ou ambivalência
na lateralidade, depois de avaliados os naturais interesses e propensões do
escrevente, será aconselhável a opção pela mão direita.

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