27/06/10

Velocidade da escrita (4)

Resultados observados

Terminado o tempo estabelecido, sempre como apoio do professor da disciplina que estava a ser leccionada, recolhi os testes, depois de os alunos colocarem no fundo da folha o seu nome, para distinguir o sexo, e a data de nascimento, para posterior elaboração da tabela por sexos, por anos de escolaridade e por idades (de seis em seis meses).
Tomei nota da mão utilizada (esquerdinos ou destros), da data de nascimento, do sexo, da turma, da escola, da data da realização do teste e de outras ocorrências mais significativas.
Como a população testada não completava exactamente a idade (ano ou seis meses) no dia em que realizaram o teste (a escala é de 6 em 6 meses), arredondei as datas de nascimento três meses para cima ou para baixo, por não se manifestar pertinente elaborar uma escala inferior a meio ano. Exemplificando: se um aluno, à data da realização do teste, tivesse 6 anos e 2 meses, atribuía-lhe a idade de 6 anos; se tivesse 6 anos e 4 meses já lhe atribuía a idade de 6 anos e meio; se, porém, tivesse 6 e 9 meses arredondava, ainda, por defeito para 6 anos e meio; todavia, se o aluno tivesse 6 anos e 10 meses, já lhe atribuía a idade de 7 anos.
Contei, de igual modo, o número de letras que cada escrevente conseguiu realizar durante um minuto, à velocidade normal (escrita cuidada), num primeiro momento, e, à velocidade máxima, num segundo momento. Mas deste trabalho constam apenas as escritas feitas à velocidade máxima.

Escalas A e B de velocidade por idades
Escalas C e D de velocidade por anos de escolaridade
Na 1.ª coluna das Escalas A, B, C e D, constam as idades ou os anos de escolaridade. Na 2.ª coluna encontra-se o número de testes realizados, na 3.ª coluna aparecem as médias conseguidas, na 4.ª está registada a totalidade das letras contabilizadas por cada idade e por cada ano de escolaridade.
Escala A – meninas, por idades
A Escala A apresenta as médias de letras feitas nas diferentes idades pelas meninas, por minuto, à máxima velocidade arredondada às décimas.
As meninas de 6,6 anos conseguiram uma média de 44,3 letras por minuto e as de 18 anos, a média de 171. Verificou-se uma evolução contínua ao longo dos vários escalões etários.
Os escalões dos 10,6 e 11 anos apresentam uma média igual, mas tal facto não se verificaria se os escalões fossem estruturados pela unidade ano, em vez de meio ano.
Entre os 16 e 17 anos há uma ligeira alteração na linha evolutiva, talvez devido ao pequeno número de alunas testadas.
A quantidade de testes realizados com meninas foi de 1 104 e o número total de caracteres contabilizados foi de 140 430.

Escala B – rapazes, por idades
A Escala B apresenta as médias de letras feitas nas diferentes idades pelos rapazes, por minuto, à máxima velocidade, arredondada às décimas.
Os rapazes de 6,6 anos conseguiram uma média de 43 letras por minuto, inferior em 1,3 às meninas. Aos 18 anos, os rapazes atingem uma média de 180,1 letras, superior à das meninas em 9,1 letras por minuto. Verificou-se igualmente uma evolução contínua ao longo dos vários escalões etários, variando apenas nos escalões dos 16,6 (demasiado elevado), 17 e 17,6, talvez devido ao reduzido número da população testada.
O número de testes realizados foi de 1 147 e o total de caracteres contabilizados perfez 138 625.

Escala C – meninas, por anos de escolaridade
A Escala C apresenta as médias de letras, arredondadas às décimas, feitas pelas meninas desde o 1.º ao 12.º ano de escolaridade, por minuto, à velocidade máxima.
As meninas do 1.º ano de escolaridade conseguiram uma média de 50,1 letras por minuto e as do 12.º ano, uma média de 180. Verificou-se uma evolução contínua ao longo dos vários anos, com um pico no 10.º ano (ver gráfico 1).


Escala D – rapazes, por anos de escolaridade
A Escala D põe em evidência as médias de letras, arredondadas às décimas, feitas pelos rapazes desde o 1.º ao 12.º ano de escolaridade, por minuto, à máxima velocidade.
Os rapazes do 1.º ano de escolaridade conseguiram uma média de 47,3 letras por minuto (inferior à das meninas do mesmo ano) e os do 12.º ano, uma média de 188,6 (superior à das meninas do mesmo ano). Constatou-se sempre uma evolução contínua ao longo dos vários anos, mais acentuada no 7.º ano.
O número de testes realizados com os rapazes foi 1 166 e a quantidade de caracteres registados foi de 139 488.
As Escalas A e B por idades apresentam um número mais baixo de testes realizados por cada escalão do que as Escalas C e D por anos de escolaridade, porque alguns alunos testados não registaram a idade, devido ao desconhecimento da data de nascimento (os mais pequeninos) ou devido ao esquecimento (os mais adiantados). Assim sendo, eu sabia o ano a que tais alunos pertenciam, mas desconhecia o escalão etário onde incluí-los.
De modo geral, sobressai uma evolução contínua na velocidade da escrita, mais acentuada na passagem do 1.º para o 2.ºano, do 6.º para o 7.º ano e do 9.º para o 10.ºano. A evolução é maior de ano para ano de escolaridade do que por idades, mas haveria uma evolução semelhante se, em vez ter tomado por unidade o meio ano (6 meses), tivesse tomado o ano (12 meses).

Se observarmos as Escalas A e B por idades, podemos comprovar que as meninas são sempre mais rápidas que os rapazes até à idade dos 12 anos e a partir desta idade são ultrapassadas pelos rapazes. Idênticas conclusões conseguirmos extrair da leitura das Escalas C e D por anos de escolaridade, em que as meninas superam sempre os rapazes até ao 6.º ano de escolaridade e a partir desta idade é o sexo masculino que consegue ser mais rápido, mesmo na idade adulta, em que também fiz algumas dezenas de testes.

Gráfico 1 - Evolução da escrita das meninasOs Gráficos 1 e 2 apresentam a linha da evolução da escrita, por anos de escolaridade, respectivamente, das meninas e dos rapazes, mais suave nestes, com um pico naquelas.



Gráfico 2 – Evolução da escrita dos rapazes
À partida, eu esperava que, à velocidade máxima, os alunos fizessem mais letras do que à velocidade normal, mas houve alguns casos em que tal não aconteceu. Um ou outro aluno ainda fez menos letras quando lhe pedi que escrevesse o mais depressa possível, devido, suponho, à reacção inibitória por nervosismo ou stress. Noutros casos, observei que a quantidade de letras no teste de velocidade máxima foi inferior ao teste da escrita cuidada, porque as letras foram feitas numa dimensão maior. Porém, só um estudo individualizado poderia esclarecer melhor estas divergências. Julgo que estes casos isolados não irão prejudicar a validade da escala construída.

Durante a administração do teste, os alunos cumpriram regularmente as normas indicadas. Alguns, especialmente os mais pequeninos, cumpriram-nas com tanto rigor que até deixaram a última letra que fizeram por completar, mal lhes fiz sinal para terminar. Num ou noutro caso, principalmente entre os de idade mais avançada, houve a tentativa de começarem a escrever antes do início da contagem do minuto ou de continuarem a escrever depois. Aos alunos que assim procederam foram-lhes anuladas as provas ou descontadas as letras que fizeram fora de prazo.

Nalgumas turmas repeti o teste alguns meses depois ou no ano seguinte, tendo verificado que os resultados foram semelhantes aos dos outros alunos testados e com as mesmas idades. Por isso, concluí que não era necessário fazer testes aos mesmos alunos ao longo de vários anos de escolaridade para construir uma escala fidedigna e representativa. Poderia testar os alunos dos vários anos ou idades na mesma data.

A fim de verificar se a repetição do teste de velocidade teria alguma influência no resultado (se aumentava ou diminuía o número de palavras por minuto), com alguns alunos, repeti o teste duas ou três vezes, com pequenos intervalos de tempo. O resultado foi sempre mais ou menos semelhante: à medida que o aluno fazia novo teste aumentava ligeiramente a quantidade de letras, devido à maior automatização do ritmo da escrita. Mas constatei que havia um limiar, ou seja, a quantidade de letras escritas, a partir da quarta ou quinta vez, deixava de crescer. E tive alguns casos em que fizeram até menos letras, devido também ao factor cansaço.

Confirmei que a prática e os exercícios aumentam a velocidade da escrita. Com tal objectivo, apliquei o teste a dois alunos em Junho, quando o ano lectivo está a chegar ao fim e a actividade da escrita é maior. Voltei a aplicá-lo aos mesmos alunos, no final das férias, em Setembro (nos meses de férias escreve-se menos), quando os alunos perdem parte do treino da escrita. Resultado: a quantidade de letras por minuto diminuiu em ambos os alunos. Uma menina do 3.º ano de escolaridade reduziu de 118 para 114 as letras por minuto e um menino do 4.º ano baixou de 108 para 104 letras. Aqui o facto treino predominou sobre o factor tempo.

Observando os testes, deparei com determinadas escritas claras, cuidadas e organizadas e com outras mal estruturadas, talvez reveladoras de problemas variados.

Detectei casos de disgrafia (perturbação de tipo funcional que afecta a qualidade da escrita, no traçado de letras, de palavras, de algarismos e doutros sinais) e de disortografia (perturbação na produção escrita, devido à presença de muitos erros ortográficos), tanto nos primeiros anos de escolaridade como nos mais avançados.

Verifiquei que há dezenas e dezenas de esquerdinos e que alguns escrevem de modo lento, desconfortável e confuso, por não utilizarem os melhores métodos de escrever e não tomarem as posições mais adequadas, do braço, do pulso, do papel e dos instrumentos de escrita.

Pude também constatar que a idade tem uma grande influência na velocidade da escrita, visto que alguns alunos repetentes, por causa do insucesso escolar, mas mais velhos dois ou três anos, conseguiram fazer um maior número de letras que os colegas mais novos, apesar de frequentarem o mesmo ano de escolaridade.
Constatei que a diferença entre o número de letras escritas por minuto à velocidade normal (escrita cuidada) e à velocidade máxima é menor nos primeiros anos de escolaridade e vai-se acentuando na adolescência.
Os alunos com 6 anos e meio e 7 anos (que ainda dominam mal a escrita) conseguiram fazer mais letras, quando lhes pedi que escrevessem mais depressa do que quando escreviam à velocidade normal.

Verifiquei que o nível de velocidade aumenta desde o 1º ao 12º ano de escolaridade, altura em que os alunos têm cerca de 18 anos de idade.
A idade, as habilitações escolares e a exercitação são três grandes factores que influenciam a velocidade.
O número de testes realizados com as meninas foi 1 168 e os caracteres contabilizados atingiram a quantidade de 147 017.

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