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04/10/26

Esquerdinos e a escrita manual - Dados e considerações sobre o estudo realizado



 Sabemos que, no passado, o esquerdino era considerado um desajeitado, um canhoto, que se adaptava com dificuldade ao mundo feito à medida do destro. Esta discriminação negativa, baseada em preconceitos e superstições ligados à utilização da mão esquerda, era muito comum nas várias civilizações.

A história, porém, ensina-nos que o esquerdino é diferente, mas não inferior. Temos exemplos de esquerdinos célebres, como Leonardo Da Vinci, Albert Einstein, Bill Gates, Barack Obama e muitas outras personalidades que se destacaram no campo das ciências e das artes.


Atualmente, a criança, com tendência a utilizar, predominantemente, a mão esquerda, contrariamente ao que sucedia no passado, não é contrariada, sob pena de prejudicar a qualidade da sua escrita e o sucesso educativo.

É, especialmente, no período pré-escolar e no início da aprendizagem da escrita que se consolida a opção pela mão predominante. A criança começa por apresentar uma maior destreza com uma mão do que com outra para escrever e para realizar as restantes atividades.

O movimento da escrita, nas línguas ocidentais, processa-se da esquerda para a direita e, por esse motivo, torna-se mais difícil para o esquerdino, que sente dificuldade em arrastar a caneta, devido à tensão dos músculos adutores e abdutores, tendo que fazer maior esforço que o destro para conseguir a mesma habilidade grafomotora.

Seria mais natural para o esquerdino que o movimento da escrita se processasse da direita para a esquerda, em vez da esquerda para a direita. O problema fica reduzido ensinando ao esquerdino as técnicas mais apropriadas da inclinação da folha para a esquerda, da posição da mão e da preensão do instrumento de escrita, para não quebrar o ritmo, nem esconder os carateres que vai acabando de executar.

Os esquerdinos estão presentes em todas as culturas, mas como são uma minoria, a maior parte dos instrumentos são concebidos a pensar nos destros, como, por exemplo, uma torneira que fecha para a direita ou os ponteiros do relógio que também se deslocam no mesmo sentido.

Os casos de ambidestrismo, em que o escrevente utiliza, com a mesma facilidade, qualquer das mãos, são pouco vulgares, mas, na prática, estes sujeitos tornam-se mais versáteis para certas atividades que requerem as duas mãos ou os dois pés (toque de instrumentos musicais ou desporto).

A principal causa do sinistrismo parece ser de origem genética, associada ao predomínio do hemisfério direito sobre o esquerdo, contrariamente aos destros em que o hemisfério esquerdo predomina sobre o direito.

Estudo realizado

Na pesquisa que realizei sobre a velocidade da escrita, junto dos alunos do 1º ano ao 12º ano de escolaridade, tomei nota de todos aqueles que escreviam com a mão esquerda.

Os alunos foram convidados a escrever a frase “ As nossas palavras são como um cristal”, durante um minuto, à velocidade normal e, a seguir, à velocidade máxima durante outro minuto.

Num universo de 2 427 alunos testados (1 215 meninas e 1 212 rapazes), encontrei 121 indivíduos esquerdinos (47 meninas e 74 rapazes), correspondendo a uma percentagem de 3,9% no sexo feminino e de 6% no sexo masculino.

Contabilizei apenas como esquerdinos aqueles alunos que, durante a realização do teste de velocidade da escrita, escreviam com a mão esquerda. Não me questionei sobre a existência de possíveis casos de esquerdinos, contrariados ou ambidestros, que, porventura, pudessem existir.

Géneros e subgéneros observados:

 

Os géneros observados foram: forma, dimensão, direção, inclinação, ligação, margem esquerda, tipo de carateres, comprimento e velocidade.

Em relação à forma, o estudo incidiu apenas sobre a escrita arredondada e angulosa. Além destes subgéneros, haveria outros a considerar, como a arcada e a filiforme, mas, com esta pesquisa, pretendo, apenas, observar qual será a escrita mais angulosa, se a dos destros ou a dos esquerdinos. Na hipótese de a escrita dos esquerdinos se apresentar mais angulosa do que a dos destros poderá significar que será importante conhecer a lateralidade do escrevente antes da caraterização da sua personalidade.

A dimensão dos carateres é classificada apenas em três subgéneros: pequenos, médios e grandes. Neste item pretende-se concluir se a lateralidade terá alguma influência na dimensão das letras.

No que respeita à direção da linha de base, a classificação abrange quatros subgéneros: ascendente, horizontal, descendente e ondulada.

Coloca-se a hipótese: Quem terá maior tendência para oscilar a linha de base, os esquerdinos ou os destros?

A Inclinação das letras foi estudada em três subgéneros: vertical, inclinada e invertida.

Quais são os escreventes com maior tendência para endireitar, inclinar ou inverter as letras, os esquerdinos ou os destros?

Em relação à ligação, o estudo incidiu sobre os subgéneros: ligada, agrupada e desligada. A escrita considera-se ligada, quando todas as letras da palavra são feitas sem levantar a caneta, exceto a barra do t ou a pinta do i. Considera-se agrupada quando as letras estão unidas em grupos de duas ou de três. E considera-se desligada, quando todas as letras da palavra estão desunidas.

Será que esquerdinos e destros apresentam graus de ligação diferentes?

Em relação à margem, considerei apenas a esquerda (pequena, média ou grande), por ser a mais significativa na organização espacial. Entende-se por margem pequena a que vai de 0 a 1,5 cm, por margem média a que vai de 1,5 a 3 cm e grande a que tem mais de 3 cm.

Coloca-se a hipótese: Uma vez que, para os esquerdinos, o avanço da escrita da esquerda para a direita não é uma tendência natural, podemos interrogar-nos: os esquerdinos deixarão uma margem mais pequena do que os destros?

Quanto ao tipo de carateres, distingui o cursivo e o tipográfico.

Analisei a extensão, medindo o comprimento em milímetros da frase “As nossas palavras são como um cristal”.

A extensão ou a concentração dos grafismos são significativas para a caracterização da personalidade e, portanto, será interessante saber se a lateralidade terá alguma influência sobre a maior ou menor ocupação do espaço.

A velocidade foi medida pela quantidade de letras, legíveis, feitas por minuto, à velocidade máxima. 

Coloca-se a questão: Os esquerdinos serão mais lentos ou mais rápidos que os destros?

Quando dizemos que uma escrita é rápida ou lenta, temos que ter presente um padrão de referência. Ora o estudo por mim realizado com 2 427 indivíduos teve, também, como finalidade encontrar uma média da velocidade de escrita dos estudantes portugueses, que poderá ser aperfeiçoada e aferida por outras pesquisas.

Análise dos resultados

Forma

 

O desenho das formas, bem como os outros géneros, iniciam-se no primeiro ano de escolaridade e evolui até à fase da personalização da escrita.

Comparando, quanto à angulosidade, a escrita dos esquerdinos com a dos destros, especialmente em relação aos ovais e às letras mm e nn, verifica-se que os esquerdinos têm uma escrita mais angulosa do que os destros.

Enquanto nos esquerdinos, a percentagem de carateres angulosos se situa em 22,4%, nos destros a percentagem é de 8,8%.

A escrita arredondada atinge a percentagem de 78,6% nos esquerdinos e 91,2% nos destros.

 

Dimensão

A escrita pequena (com 1,5 – 2,5 mm) é a predominante, tanto nos esquerdinos como nos destros, em todos os níveis etários e nos dois sexos, sendo de 56,8% nos esquerdinos e 61,8% nos destros.

As diferenças no tamanho médio (entre 2,5 – 3,5 mm) são, igualmente, insignificantes: 34,3% para os esquerdinos e 33,3% para os destros.

A escrita grande (entre 3,5 – 4,5mm) surge numa percentagem baixa: 8,8% para os esquerdinos e 5% para os destros, mas a diferença entre ambos é significativa.

Constatei que, no primeiro ano, a letra é maior, nos seguintes decresce e, por volta do 7º ano (cerca de 13 anos de idade), volta a aumentar de novo.

Direção da linha de base

 

Entre os vários tipos de direção analisados, onde sobressai maior diferença entre esquerdinos e destros é na linha horizontal, com 15,7% para os esquerdinos e 24,5% para os destros. A linha ondulada encontra-se em 32,4% de esquerdinos e em 24,5% de destros. As percentagens de ascendente e descendente são mais baixas e aproximadas, entre esquerdinos e destros.


Inclinação

Na escrita invertida não se observaram diferenças entre destros e esquerdinos, tendo sido obtida uma percentagem 14% igual para os dois grupos.

A tendência predominante é para a escrita vertical, com 76,5% nos esquerdinos e 70,6% nos destros.

Onde se observa maior diferença entre destros e esquerdinos é na escrita inclinada, com 15,7% dos destros e 9,8% dos esquerdinos.  


Em nenhum destes parâmetros, se verifica um aumento ou diminuição com a idade. De um modo geral, observa-se uma maior tendência para a escrita invertida no género feminino e para a escrita inclinada, no género masculino, independentemente da lateralidade.  

Ligação

 

A escrita ligada faz parte do modelo de ensino, portanto, será natural que no 1º e 2º anos de escolaridade, a percentagem de escritas ligadas atinja cem por cento, tanto nos esquerdinos como nos destros. É de realçar que esta posição se inverte entre o 7º e 9º anos, em que a maior parte das escritas se apresentam desligadas. Esta inversão deve-se ao facto de os alunos deste nível etário terem rompido com o modelo escolar.

 

 

 

Comparando o grau de ligação entre esquerdinos e destros, as diferenças são pouco contrastantes.

Nos esquerdinos, a percentagem da escrita ligada é de 58,8% e, nos destros, sobe para 61,8%. A escrita agrupada, nos esquerdinos, alcança 20,6% e nos destros é de 14,7%. A desligada, nos esquerdinos, é de 20,6%, nos destros, de 23,5%.

 

Margem esquerda

A margem esquerda pequena ocorre menos vezes nos esquerdinos (65,7%) do que nos destros (79,4%). A margem média aparece em 19,6% dos esquerdinos e 15,7% dos destros. A margem esquerda grande encontra-se em 14,7% dos esquerdinos e em 4,9% dos destros.


Carateres cursivos e tipográficos

 

A escrita cursiva faz parte do modelo caligráfico e manifesta-se, praticamente, a cem por cento nos seis primeiros anos de escolaridade. As alterações significativas do modelo escolar verificam-se, apenas com a adolescência, a partir do 7º ano de escolaridade.

Neste item, foram os esquerdinos que utilizaram os carateres tipográficos em maior percentagem (9,8%), contra 5,9% dos destros. Podemos interrogar-nos sobre estas opções distintas. Será que os esquerdinos são mais criativos? Ou será devido à maior dificuldade na execução dos carateres cursivos?


Comprimento ou extensão da frase

No início da aprendizagem, a ocupação do espaço é maior do que nos anos seguintes: os esquerdinos ocupam, em média, 15,1cm para escreverem a frase modelo e os destros, 14,2 cm.

Nos anos subsequentes, verifica-se uma diminuição, não sequencial, na ocupação do espaço. Existe uma ligeira tendência à concentração espacial, após os primeiros anos de escolaridade, para, posteriormente, na adolescência, o enunciado voltar a expandir-se.

Comparando os comprimentos do enunciado entre o género masculino e feminino, independentemente da lateralidade, constatei que as meninas, em geral, ocupam mais espaço que os rapazes para escreverem as mesmas palavras, sendo a diferença de comprimento entre raparigas e rapazes maior do que entre esquerdinos e destros.

O comprimento médio das frases das meninas é de 13,7 cm, enquanto o dos rapazes é de 12,5cm.


 

Velocidade da escrita


Comparando a velocidade de escrita dos esquerdinos com a dos destros, verifica-se que estes são, tendencialmente, mais rápidos. Os esquerdinos fazem, em média, menos 6,5% de letras por minuto do que os destros.

 

Esquerdinos - por ano de escolaridade

Destros - por ano de escolaridade

ano

fem.

 

masc.

 

total

ano

fem.

 

masc.

 

total

1º

31,7

 

47,7

 

43,8

1º

48

 

46

 

47

2º

92,5

 

71,3

 

78,3

2º

79

 

77

 

78

3º

84

 

93,8

91,3

3º

98,8

 

96

 

97

4º

114

 

108

 

108

4º

113

 

109

 

111

5º

117

 

97,5

 

109

5º

121

 

118

 

120

6º

117

 

121

 

119

6º

128

 

127

 

128

7º

126

 

146

 

138

7º

147

 

147

 

147

8º

152

 

155

 

153

8º

148

 

161

 

154

9º

166

 

156

 

156

9º

158

 

164

 

161

10º

176

 

162

 

157,4

10º

168

 

166

 

167

11º

179

 

168

 

172

11º

168

 

180

 

173

12º

158

 

158

 

158

12º

174

 

185

 

179

Fig. 27 - Velocidade dos esquerdinos

Fig. 28 - Velocidade dos destros

 

 Na imagem  podemos visualizar melhor a evolução da velocidade da escrita da totalidade dos esquerdinos e da totalidade dos destros, ao longo de vários anos de escolaridade.

 

Conclusões

 

Do estudo realizado podemos extrair as seguintes conclusões:

·       A percentagem de esquerdinos é mais elevada no sexo masculino do que no feminino.


 A letra dos esquerdinos apresenta-se, ligeiramente, mais angulosa que a dos destros.


 Nos primeiros meses de escolaridade, a criança desenha carateres grandes. No final do 1º ano, as letras tornam-se mais pequenas, mas voltam a ganhar uma maior dimensão na fase da adolescência, especialmente nas meninas.

 

·       Não existem sinais claros para afirmar que a direção da linha é mais sinuosa nos esquerdinos do que nos destros.

 

·       Não se confirmou a tendência dos esquerdinos para inverterem mais a escrita que os destros.

 

·       A ligação é uma constante, especialmente nos primeiros anos de escolaridade, porque faz parte do modelo escolar. A escrita dos esquerdinos apresenta um grau de ligação semelhante à dos destros.

·       Quanto à largura da margem esquerda, predomina a margem grande nos esquerdinos e a margem pequena, nos destros.

 

·       Na extensão da frase, não se verificaram diferenças significativas entre esquerdinos e destros, todavia as meninas expandem mais o enunciado do que os rapazes.

·       Nos primeiros anos de escolaridade quase se não encontram carateres tipográficos, que são introduzidos mais tarde, após a interiorização do modelo escolar.

 

·       Os esquerdinos tendem a ser um pouco mais lentos que os destros.

·       As crianças na primeira fase da aprendizagem não imitam exatamente a escrita dos seus mestres, mas, cada uma adapta, inconscientemente, o modelo às próprias caraterísticas temperamentais.

·       No caso de indefinição ou ambivalência na lateralidade, depois de avaliados os naturais interesses e propensões do escrevente, será aconselhável a opção pela mão direita.

 

 04.10.2026

Afonso H. M. Sousa