05/09/15

Escrita feminina e masculina



Não podemos afirmar, absolutamente, que um documento foi escrito por uma mulher ou por um homem. Existem, porém, escreventes do sexo feminino que apresentam caraterísticas de masculinidade e há sujeitos do sexo masculino que revelam caraterísticas de feminilidade. No entanto, em determinadas circunstâncias, atendendo à diversidade natural dos géneros, pode afirmar-se que determinada escrita terá saído, provavelmente, do punho de um homem ou do de uma mulher.
A escrita das senhoras costuma apresentar-se mais arredondada e regular do que a dos homens, a zona média das letras evidencia-se mais que a superior e a inferior, a forma dos carateres predomina sobre o movimento, a pressão é menor e a dimensão é maior. Os carateres costumam ser simétricos, contendo, normalmente, adornos e, apresentando-se, tendencialmente, verticais.

As senhoras, de facto, relevam como predicados a simetria, a recetividade, a ternura e a contenção.

A escrita dos homens apresenta-se mais movimentada e inclinada para a frente, com angulosidades e irregularidades, mais larga e mais pressionada, com predomínio das zonas superior e inferior sobre a zona média. A direção da linha de base é oscilante, sendo as letras mais pequenas e mais estreitas.

Os homens são, predominantemente, mais dados à ação, à impulsividade, à assimetria e ao ataque.

Estas diferenças, que, atualmente, tendem a esmorecer, continuam a significar e a gerar complementaridade.



30/07/15

Sinais de alarme na escrita dos adolescentes

A escrita dos adolescentes pode apresentar sinais de alerta que devem despertar a atenção dos pais, dos professores e do psicólogo escolar.

Na abordagem ligeira deste artigo, vou apresentar os principais sinais a ter em consideração e as medidas a tomar, aquando da sua presença de sinais de alarme na escrita dos adolescentes.

Os distúrbios da adolescência e as crises da puberdade refletem-se, normalmente, nos trabalhos escolares manuscritos.

Úrsula Avé-Lallemant, psicóloga e grafóloga alemã, autora do livro, O Teste das Estrelas e das Ondas, que permite avaliar o grau de maturidade, sintomas de distúrbios e outras caraterísticas da primeira infância, analisou mais de duas mil escritas de crianças e de adolescentes, a fim de detetar sinais de sofrimento, próprios destas idades, que de outra maneira seriam mais difíceis de conseguir identificar. Tais sinais são uma espécie de pedido de socorro, sem que constituam um desequilíbrio psicológico patológico.

Esses sintomas são universais, sendo, portanto, transversais às várias culturas, línguas ou sociedades.

Os sinais de alarme podem observar-se na desorganização do espaço grafroescritural (desagregado, desestruturado ou confuso) que revela sintomas de disfunção no relacionamento com os outros, insegurança ou angústia. A hiper-estruturação do espaço indicará, especialmente, falta de autonomia.

A forma como as letras e as palavras estão realizadas (retocadas, isoladas, truncadas) representam conflitos interiores, necessidade de independência e falta de segurança.

O movimento e o ritmo (frouxos, rígidos ou inibidos) indiciam um esforço extremo na observação das normas e regulamentos. A carga excessiva, que o adolescente sente, leva-o ao conformismo e impede-o de descobrir o verdadeiro sentido e finalidade da norma.

A qualidade do próprio traçado (sujo, fragmentado, sobreposto) pode ser sintoma de falta de firmeza, de insegurança e de irritabilidade.

A intervenção atempada do grafólogo e do psicólogo escolar, perante estes sinais de sofrimento, conseguiria modificar as consequências negativas diretas na aprendizagem e no desenvolvimento do adolescente, numa fase em que se constroem os alicerces do Adulto Integrado.

As caraterísticas dos grafismos devem ser consideradas isoladamente, mas analisadas e avaliadas globalmente e contextualizadas, antes de extrair qualquer conclusão e, sempre que possível, no âmbito interdisciplinar. 

28/07/15

Escrita muito cuidada ou demasiado regular

Estamos em presença de uma escrita demasiado cuidada, igual, estereotipada, caligráfica e lenta.
O automatismo deste traçado parece não deixar respirar livremente o seu autor, dominado pelo superego e pelo excessivo respeito das normas e das tradições.
 (Imagem extraída de Augusto Vels, Grafologia, de la A a la Z)
A artificialidade desta escrita pode constituir um mecanismo de defesa do seu autor, perante determinado sentimento de inferioridade.


Este tipo de grafismo expressa o desejo inconsciente de querer ser diferente do que se é ou se julga ser, perante os outros. Moretti fala, também, de outros sinais gráficos, como os “gestos fugitivos”, que são, igualmente, manifestados pelos mecanismos de defesa de alguns escreventes.

O escrevente é capaz de camuflar as próprias fragilidades, em prejuízo da ação dinâmica e da originalidade próprias da sua personalidade.

Esta “fuga para a frente” pode levar os sujeitos a criar uma realidade fictícia que substitui a verdadeira realidade. Tal atitude reduz a capacidade de autocrítica e aumenta o desejo de impor o próprio ponto de vista.

Estes e outros mecanismos de defesa fazem parte de cada processo psíquico, sendo alheio à vontade do sujeito, que, assim, tenta resguardar-se, ocultando as suas limitações reais ou imaginárias, perante a sociedade e o meio envolvente.

O indivíduo, que se apresenta mascarado perante os outros, ao condicionar-se pelo meio ambiente, deixa de ser ele próprio.


Estes padrões de comportamento podem atingir todas as atividades e, neste caso, a da escrita. A análise desta permitiria obter uma melhor compreensão da organização dinâmica da personalidade do escrevente.

05/07/15

CARTA DE CRISTINA, INFANTA DE ESPANHA

Esta é última página da carta que a Infanta Cristina de Espanha enviou ao seu irmão Filipe VI, atual rei de Espanha, em princípios de junho, solicitando a renúncia ao título de Duquesa de Palma de Maiorca, a fim de evitar a contaminação da Coroa, devido aos processos judiciais em que a Infanta e o marido são acusados.
A opção por uma redação manuscrita, em vez da utilização do computador, permite-lhe expressar de modo mais intenso a sua personalidade e intimidade, não apenas através do conteúdo, mas também das marcas deixadas pelo fio de tinta no espaço da folha de papel.
De facto, esta carta contém as caraterísticas necessárias para uma boa análise das tendências biopsicológicas da personalidade da sua autora, expressas com espontaneidade, abundância e originalidade.
A carta é constituída por quatro folhas e está escrita a tinta azul.
Principia a saudação com a palavra “Majestade” e finaliza com a expressão “Infanta de Espanha”.
A escrita apresenta-se simples, legível e sem os exageros ornamentais que seriam de esperar em estratos sociais elevados.
Os carateres maiúsculos, as hastes e pernas estão reduzidos à sua expressão mais simplificada. Apenas o “C” final de “Cristina”, na assinatura, se eleva verticalmente e prolonga na horizontal para sustentar o nome, terminando encurvado para a esquerda.
A velocidade, movimento e ritmo materializam-se, com naturalidade, neste grafismo vertical ou ligeiramente inclinado para trás.
As numerosas formas em grinalda e a quase ausência de ângulos são caraterísticas típicas da feminilidade.
Acentuação e pontuação precisas e pouco exuberantes coadunam-se com o formato do texto.
A dimensão das letras é moderada e grande parte delas estão desligadas no interior das palavras. As linhas encontram-se ligeiramente onduladas, encontrando-se afastadas umas das outras e formando a margem esquerda crescente e a margem direita bastante livre e irregular.
Como gestos-tipo, observam-se as letras “ll” resumidas a simples traços descendentes, os “tt” com a barra a partir da base das hastes e os “ee” a constituírem um misto entre género caligráfico e tipográfico.
O levantamento das caraterísticas patentes neste documento constitui apenas uma simples amostragem, sem o propósito de uma análise extensa e nem intensa.

Dispensando-me de interpretações psicológicas das caraterísticas apresentadas, concluo, apenas, que a ausência de formas gráficas elaboradas assentam bem numa personalidade que renuncia ao título de Duquesa.  

31/05/15

Inclinação e inversão dos grafismos



Apresenta-se como natural a atribuição de significados diferentes à inclinação e à inversão dos grafismos.
Apesar de não se poderem atribuir caraterísticas psicológicas à personalidade do escrevente quando os parâmetros gráficos surgem isolados do seu contexto, uma simples observação de algumas escritas ou pinturas leva-nos a destacar tendências diferentes ou mesmo opostas.
 É o caso do simbolismo expresso pelas figuras presentes no quadro de Filipe de Champanhe, pintor barroco francês do século XVII, sobre a aparição do Anjo. A posição das personagens ilustra bem o significado que o artista lhes pretende atribuir: o avanço do Anjo e o recuo da Virgem.
O pintor apresenta-nos a Virgem surpreendida e retraída com as palavras do Anjo. Aquela não contava com semelhante notícia. Por tal facto, coloca-se numa posição de defesa, inclinando-se para trás. Com esta atitude, Maria manifesta prudência e uma certa timidez.
O Anjo, pelo contrário, inclina o corpo para frente, projetando-se sobre a Virgem e apresentando-se cheio de energia e de iniciativa. 

Maria, numa atitude introvertida, parece recuar, ao passo que o Anjo, manifestando-se extrovertido, avança em sua direção, interpelando-a e considerando-se seu protetor.  
Esta posição do corpo da Virgem tem um significado comparável ao da escrita inclinada para trás e a posição do corpo do Anjo assume um sentido semelhante ao da escrita inclinada para frente.

Também os adolescentes, especialmente as meninas, numa fase da vida em que lhes surgem tantos obstáculos, têm tendência a inverter a escrita. Trata-se de uma atitude natural, se a inversão for pouco pronunciada e limitada no tempo. No entanto, pode constituir um sinal de alarme para os pais, para o psicólogo ou para o grafólogo, quando aquela for muito acentuada e se prolongue temporalmente.

11/04/15

Análise linguística forense


O ex-primeiro ministro português, José Sócrates, publicou o livro “Confiança no Mundo – Sobre a Tortura em Democracia”. O jornal semanário “Sol”, num artigo de Ana Paula Azevedo e Felícia Cabrita, de 27/03/2005,  relatam que terá sido um professor catedrático a escrever o livro. Chegaram a esta conclusão, com base em indícios recolhidos, através de escutas telefónicas, na Operação Marquês. Os advogados de José Sócrates desmentiram, categoricamente, afirmando que tenha sido este o autor do livro.


Vemos muitas pessoas a escrever livros, apesar de possuírem um nível intelectual inferior ao ex-primeiro ministro. Ninguém duvida que ele não tenha preparação e dotes suficientes para escrever um ou mais livros.  
Acredite-te ou não se acredite que o livro tenha sido escrito por José Sócrates, existem métodos de avaliação que podem confirmar a autoria, neste e em tantos outros casos, em que são levantadas suspeitas.
O método aqui proposto é a análise linguística das marcas deixadas no texto contestado, seguida da comparação com as de outros textos escritos pelo considerado verdadeiro autor ou pelo autor suspeito.
Existem centenas de parâmetros que, se estiverem presentes e coincidirem numa e noutras obras, confirmam a sua autoria; pelo contrário, se se observarem numa obra e não estiverem presentes noutra ficará provada uma autoria diferente.
A linguagem escrita permite expressar-nos através de várias funções e obedece a estruturas semânticas, sintáticas e morfológicas caraterísticas.
Vou limitar-me a citar cerca de duas dezenas de itens que costumam se examinados e aplicados na identificação de autores de cartas anónimas escritas em carateres tipográficos:
·  A preferência por uma das funções: denotativa, conotativa, apelativa, fática, poética e metalinguística.
·  A densidade de ideias e a riqueza vocabular ou o uso de redundâncias, com estereótipos.
· O modo de construção do discurso: preferência por frases simples ou complexas, coordenadas ou subordinadas.
·  A abundância ou a escassez de parágrafos.
·  A ordem dos elementos sintáticos na frase.
·  O nível de linguagem: corrente, popular, cuidado, literário, familiar e calão.  
·  O uso frequente ou diminuto de sufixos aumentativos ou diminutivos.
·  A utilização, de modo correto ou incorreto, da pontuação e da acentuação. 
·  O recurso a estrangeirismos, neologismos ou arcaísmos.
·  O emprego de expressões idiomáticas ou recorrentes.
·  A repetição de determinados termos que estabelecem o relacionamento entre frases, tais como: ora, então, pois, portanto, com efeito, aqui.
· A abundância de diversos tipos de frases: declarativo, interrogativo, exclamativo e imperativo.
·  O domínio dos discursos direto, indireto ou indireto livre.
·  A adjetivação excessiva ou diminuta.
·  A existência de erros semânticos, sintáticos ou ortográficos.
·  A preferência por figuras de estilo mais frequentes: metáfora, hipérbole, ironia, repetição, comparação.
· O emprego de determinadas formas verbais, de pronomes pessoais, de advérbios, de preposições, de interjeições.
· A repetição de  tiques linguísticos, impares, específicos de cada escritor. 

Nada, na linguagem, acontece por acaso, porque a utilização das palavras no discurso oral ou escrito  é modelada, singularmente, pela mente de cada escritor. 

26/01/15

EVOLUÇÃO GRAFOESCRITURAL


ESTA EXPRESSÃO FOI ESCRITA PELA MESMO MENINO, EM CINCO PERÍODOS DIFERENTES DA SUA APRENDIZAGEM. 

A PRIMEIRA FOI REALIZADA AOS 6 ANOS E MEIO DE IDADE, APÓS TER APRENDIDO TODAS AS LETRAS DO ALFABETO. A QUINTA FOI AOS 11 ANOS E MEIO.
A EVOLUÇÃO DO GRAFISMO NOS VÁRIOS PARÂMETROS É EVIDENTE. NA FASE INICIAL, EM QUE EVIDENCIA-SE A ESCASSA ORGANIZAÇÃO ESPACIAL E FALTA DE LIGAÇÃO DOS CARATERES.
A dimensão e a forma apresentam-se irregulares. A direção da linha é muito oscilante. Os espaços entre letras e entre palavras são desproporcionados. mAIS TARDE ESTAS DIFICULDADES SÃO SUPERADAS.
PORÉM, OS RITMOS  DA EVOLUÇÃO DA ESCRITA VARIAM MUITO DE UMAS CRIANÇAS PARA AS OUTRAS, ACOMPANHANDO AS DIFERENÇAS DO DESENVOLVIMENTO NEUROLÓGICO, PSÍQUICO E MOTOR. 
NOUTRAS CRIANÇAS ESTUDADAS OBSERVOU-SE  UMA AGILIDADE GRÁFICA MUITO SIGNIFICATIVA, SEM QUE OS CARATERES TENHAM PERDIDO A LEGIBILIDADE.
FAÇO AQUI REFERÊNCIA A ESTE CASO PORQUE É UM DOS QUE VEM SENDO ESTUDADO AO LONGO DE  VÁRIOS ANOS, UMA OU DUAS VEZES POR ANO.
HAVERIA MUITAS CONCLUSÕES A EXTRAIR, ESPECIALMENTE A NÍVEL PSICOLÓGICO, MAS  FICAM PARA  OUTRA OPORTUNIDADE.