31/05/15

Inclinação e inversão dos grafismos



Apresenta-se como natural a atribuição de significados diferentes à inclinação e à inversão dos grafismos.
Apesar de não se poderem atribuir caraterísticas psicológicas à personalidade do escrevente quando os parâmetros gráficos surgem isolados do seu contexto, uma simples observação de algumas escritas ou pinturas leva-nos a destacar tendências diferentes ou mesmo opostas.
 É o caso do simbolismo expresso pelas figuras presentes no quadro de Filipe de Champanhe, pintor barroco francês do século XVII, sobre a aparição do Anjo. A posição das personagens ilustra bem o significado que o artista lhes pretende atribuir: o avanço do Anjo e o recuo da Virgem.
O pintor apresenta-nos a Virgem surpreendida e retraída com as palavras do Anjo. Aquela não contava com semelhante notícia. Por tal facto, coloca-se numa posição de defesa, inclinando-se para trás. Com esta atitude, Maria manifesta prudência e uma certa timidez.
O Anjo, pelo contrário, inclina o corpo para frente, projetando-se sobre a Virgem e apresentando-se cheio de energia e de iniciativa. 

Maria, numa atitude introvertida, parece recuar, ao passo que o Anjo, manifestando-se extrovertido, avança em sua direção, interpelando-a e considerando-se seu protetor.  
Esta posição do corpo da Virgem tem um significado comparável ao da escrita inclinada para trás e a posição do corpo do Anjo assume um sentido semelhante ao da escrita inclinada para frente.

Também os adolescentes, especialmente as meninas, numa fase da vida em que lhes surgem tantos obstáculos, têm tendência a inverter a escrita. Trata-se de uma atitude natural, se a inversão for pouco pronunciada e limitada no tempo. No entanto, pode constituir um sinal de alarme para os pais, para o psicólogo ou para o grafólogo, quando aquela for muito acentuada e se prolongue temporalmente.

11/04/15

Análise linguística forense


O ex-primeiro ministro português, José Sócrates, publicou o livro “Confiança no Mundo – Sobre a Tortura em Democracia”. O jornal semanário “Sol”, num artigo de Ana Paula Azevedo e Felícia Cabrita, de 27/03/2005,  relatam que terá sido um professor catedrático a escrever o livro. Chegaram a esta conclusão, com base em indícios recolhidos, através de escutas telefónicas, na Operação Marquês. Os advogados de José Sócrates desmentiram, categoricamente, afirmando que tenha sido este o autor do livro.


Vemos muitas pessoas a escrever livros, apesar de possuírem um nível intelectual inferior ao ex-primeiro ministro. Ninguém duvida que ele não tenha preparação e dotes suficientes para escrever um ou mais livros.  
Acredite-te ou não se acredite que o livro tenha sido escrito por José Sócrates, existem métodos de avaliação que podem confirmar a autoria, neste e em tantos outros casos, em que são levantadas suspeitas.
O método aqui proposto é a análise linguística das marcas deixadas no texto contestado, seguida da comparação com as de outros textos escritos pelo considerado verdadeiro autor ou pelo autor suspeito.
Existem centenas de parâmetros que, se estiverem presentes e coincidirem numa e noutras obras, confirmam a sua autoria; pelo contrário, se se observarem numa obra e não estiverem presentes noutra ficará provada uma autoria diferente.
A linguagem escrita permite expressar-nos através de várias funções e obedece a estruturas semânticas, sintáticas e morfológicas caraterísticas.
Vou limitar-me a citar cerca de duas dezenas de itens que costumam se examinados e aplicados na identificação de autores de cartas anónimas escritas em carateres tipográficos:
·  A preferência por uma das funções: denotativa, conotativa, apelativa, fática, poética e metalinguística.
·  A densidade de ideias e a riqueza vocabular ou o uso de redundâncias, com estereótipos.
· O modo de construção do discurso: preferência por frases simples ou complexas, coordenadas ou subordinadas.
·  A abundância ou a escassez de parágrafos.
·  A ordem dos elementos sintáticos na frase.
·  O nível de linguagem: corrente, popular, cuidado, literário, familiar e calão.  
·  O uso frequente ou diminuto de sufixos aumentativos ou diminutivos.
·  A utilização, de modo correto ou incorreto, da pontuação e da acentuação. 
·  O recurso a estrangeirismos, neologismos ou arcaísmos.
·  O emprego de expressões idiomáticas ou recorrentes.
·  A repetição de determinados termos que estabelecem o relacionamento entre frases, tais como: ora, então, pois, portanto, com efeito, aqui.
· A abundância de diversos tipos de frases: declarativo, interrogativo, exclamativo e imperativo.
·  O domínio dos discursos direto, indireto ou indireto livre.
·  A adjetivação excessiva ou diminuta.
·  A existência de erros semânticos, sintáticos ou ortográficos.
·  A preferência por figuras de estilo mais frequentes: metáfora, hipérbole, ironia, repetição, comparação.
· O emprego de determinadas formas verbais, de pronomes pessoais, de advérbios, de preposições, de interjeições.
· A repetição de  tiques linguísticos, impares, específicos de cada escritor. 

Nada, na linguagem, acontece por acaso, porque a utilização das palavras no discurso oral ou escrito  é modelada, singularmente, pela mente de cada escritor. 

26/01/15

EVOLUÇÃO GRAFOESCRITURAL


ESTA EXPRESSÃO FOI ESCRITA PELA MESMO MENINO, EM CINCO PERÍODOS DIFERENTES DA SUA APRENDIZAGEM. 

A PRIMEIRA FOI REALIZADA AOS 6 ANOS E MEIO DE IDADE, APÓS TER APRENDIDO TODAS AS LETRAS DO ALFABETO. A QUINTA FOI AOS 11 ANOS E MEIO.
A EVOLUÇÃO DO GRAFISMO NOS VÁRIOS PARÂMETROS É EVIDENTE. NA FASE INICIAL, EM QUE EVIDENCIA-SE A ESCASSA ORGANIZAÇÃO ESPACIAL E FALTA DE LIGAÇÃO DOS CARATERES.
A dimensão e a forma apresentam-se irregulares. A direção da linha é muito oscilante. Os espaços entre letras e entre palavras são desproporcionados. mAIS TARDE ESTAS DIFICULDADES SÃO SUPERADAS.
PORÉM, OS RITMOS  DA EVOLUÇÃO DA ESCRITA VARIAM MUITO DE UMAS CRIANÇAS PARA AS OUTRAS, ACOMPANHANDO AS DIFERENÇAS DO DESENVOLVIMENTO NEUROLÓGICO, PSÍQUICO E MOTOR. 
NOUTRAS CRIANÇAS ESTUDADAS OBSERVOU-SE  UMA AGILIDADE GRÁFICA MUITO SIGNIFICATIVA, SEM QUE OS CARATERES TENHAM PERDIDO A LEGIBILIDADE.
FAÇO AQUI REFERÊNCIA A ESTE CASO PORQUE É UM DOS QUE VEM SENDO ESTUDADO AO LONGO DE  VÁRIOS ANOS, UMA OU DUAS VEZES POR ANO.
HAVERIA MUITAS CONCLUSÕES A EXTRAIR, ESPECIALMENTE A NÍVEL PSICOLÓGICO, MAS  FICAM PARA  OUTRA OPORTUNIDADE. 

19/11/14

Escrita de duas irmãs gémeas vitelinas


Esta é uma pequenina amostra da escrita de duas irmãs gémeas univitelinas, dextras, com boa prática grafoescritural e com 74 anos de idade, residentes na mesma localidade, algures em Portugal.
As imagens são fictícias, mas as escritas são reais.
A cada uma das irmãs foi facultada meia folha branca de papel tamanho A4, sem linhas. Solicitei-lhes que escrevessem esta curta frase “ Eu gosto muito de ir ao cinema”, momentos antes de entrarem numa sala de cinema. Sentadas junto da mesma mesa, no mesmo ambiente e à mesma hora, pegaram em duas esferográficas e corresponderam, com prontidão e voluntariamente, ao meu pedido.

Será que a escrita destas duas irmãs, fisicamente confundíveis e com a voz muito semelhante, apresenta caraterísticas idênticas?
As investigações efetuadas por diversos autores levaram à conclusão que a escrita reflete a personalidade do escrevente, o seu temperamento e pré-disposições. Vamos verificar, através deste breve exame comparativo, se, de facto, estas duas gémeas constituem uma exceção.

Comparando os dois enunciados, observam-se várias caraterísticas diferentes:
A diversa ocupação do espaço surge, de imediato, evidente. Uma das gémeas concentra a escrita, outra expande-a, resultando uma diferença significativa no comprimento, altura e largura dos carateres.
O gesto tipo, patente nos traços iniciais sinistrogiros das letras “m” e “n” e o seu formato em arcada, na primeira frase, contrastam com a forma dos mesmos carateres em grinalda, na segunda frase.
A presença de anéis nas pernas de algumas letras, o movimento sinistrogiro da consoante “d” e a pinta do “i” em forma de bolinha, distinguem-se, claramente, no segundo enunciado e não se observam no primeiro.
O alinhamento da linha de base apresenta-se mais livre, na segunda frase, mas ligeiramente ondulado, terminando com a palavra “cinema” em ligeira descida. 
As barras dos “tt” são traçadas diferentemente: uma realiza um golpe de sabre rasteiro sobre uma haste vertical, outra traça, levemente, as barras, ora à esquerda, ora à direita, nas hastes invertidas.

Assinalam-se, de igual modo, determinadas semelhanças significativas:
As formas predominantes são ovalizadas, e, apesar da idade, nenhuma irmã desenvolve ângulos nos ovais.
A direção dos carateres é vertical, em ambas as gémeas.
A pressão exercida sobre o papel apresenta-se leve nas duas frases.
O nível de ligação é semelhante, apesar de algumas interrupções, devidas ao gesto tipo, na primeira frase.
Os dois enunciados apresentam bom grau de legibilidade.
A margem esquerda contém idêntica dimensão.
O espaço entre as letras é abundante nos dois casos.
A vogal “o”, a fechar à esquerda, e a letra “s”, em forma tipográfica, constituem dois pormenores significativos.
Atendendo à pequenez do enunciado não é plausível traçar o perfil psicológico das escreventes, nem este foi solicitado pelas duas irmãs.

Porém, pode concluir-se que as diferenças constatadas, nos dois grafismos, confirmam que as personalidades destas gémeas univitelinas são distintas, apesar de manifestarem algumas tendências semelhantes. Elas próprias reconheceram que possuem algumas caraterísticas psicológicas similares.
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03/10/14

Aprendizagem da escrita

Escrita de uma menina no final do 1.º ano
A aprendizagem da escrita é um processo de grande complexidade, porque requer um conjunto de capacidades psicomotoras, emocionais e intelectuais.

O professor utiliza os métodos mais adequados e está atento, a fim de evitar quaisquer distúrbios gráficos ou disgrafias que impeçam a normal evolução do aluno. 
A posição correta da caneta, da mão, do braço e do próprio corpo são condições indispensáveis para que a criança “desenhe” os carateres e os integre em palavras e frases.
A autora deste texto, imitando a sua professora, ao fim de um ano, consegue exprimir-se com clareza e legibilidade.
Os vocábulos encontram-se separados de modo a não se confundirem uns com os outros.
A margem esquerda está alinhada.
A unidade gráfica já não é a letra, mas a palavra, com sentido próprio.
Observam-se,  ainda, algumas colagens.
Existe uma boa distinção entre a zona média, as hastes e as pernas dos carateres.
A pressão é firme, deixando um sulco que se observa, com nitidez, no verso da folha.
A pontuação é carregada e precisa.
Sobressaem os remates prolongados das letras, a grande dimensão das hastes e das pernas, a inclinação sinistrogira dos carateres e amplitude dos sinais de pontuação.
Esta menina do 1.º ano de escolaridade está a ter uma aprendizagem correta .
O ritmo da escrita é, ainda, lento, mas aumentará, gradualmente, nos anos seguintes, após o modelo ter sido interiorizado e personalizado.
À medida que a criança cresce e se desenvolve, o seu grafismo evoluirá com ela e vice-versa, porque ambos se encontram em perfeita sintonia.

Por esta razão, a escrita personalizada e espontânea constitui um ótimo meio de caraterização da personalidade e pode servir para identificar o escrevente no âmbito da criminologia.

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21/07/14

A língua aramaica e a escrita de Jesus Cristo


 
Alguém me colocou a questão: Como seria a escrita de Jesus Cristo?
Esta é uma pergunta fácil de fazer, mas de difícil resposta.
Não sendo este o espaço mais apropriado para tratar este tema, não vou, contudo, deixar de tecer sobre ele algumas considerações.
Porém, esta questão, que me foi colocada, faz todo o sentido. Se conseguimos conhecer as tendências de um indivíduo através da sua escrita, também seria possível deduzir como teria sido a sua escrita, com base nas tendências pessoais. Ora as caraterísticas da  personalidade de Jesus são bem conhecidas.
Não consta que Cristo fosse muito dado à escrita, nos seus ensinamentos, preferindo o discurso oral. Todavia, teria utilizado o aramaico, com carateres cuneiformes e escrito da direita para a esquerda, contrariamente às línguas ocidentais.
A sua escrita não se distinguiria muito da dos seus concidadãos, uma vez que Jesus pretendia passar por uma pessoa “comum”, integrada na própria comunidade. Talvez encontrássemos nela elementos semelhantes aos das pessoas humildes e retas. Seria uma letra legível, sem artificialismos nem traços exagerados. Utilizaria sinais simples, porque não teria sentido a necessidade de recorrer a máscaras gráficas para camuflar tendências indesejáveis.


João, evangelista, no episódio da mulher adúltera, relata que Jesus se baixou e escreveu na terra com o dedo. Trata-se da única referência à escrita de Jesus, mas desconhece-se a sua forma e o seu conteúdo. É muito estranho que uma personalidade como a de Cristo, que pretendia instaurar uma doutrina, não se tenha servido da linguagem escrita para a divulgar. Os documentos escritos imprimiriam, com certeza, uma maior precisão ao seu pensamento e reduziriam ou evitariam ulteriores interpretações, por vezes, contraditórias.
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12/07/14

Escrita de Renato Seabra


Extrato de uma carta escrita por Renato Seabra, em setembro de 2013, à jornalista Marta Dhanis.

O jovem modelo Renato Seabra cumpre uma pena mínima de 25 anos por ter assassinado e mutilado o cronista social Carlos Castro, de 65 anos, num quarto do Hotel Intercontinental, em Manhattan, em janeiro de 2011.
Renato Seara diz-se arrependido e perturbado pelos maléficos atos praticados, mas os verdadeiros motivos deste horroroso crime estão ainda por esclarecer. Que circunstâncias ou alterações terão ocorrido na sua personalidade naquele dia e àquela hora? A sua escrita revelará tendências de homicida?
As principais caraterísticas que costumam encontrar-se na escrita de homicidas são:
  •        a irregularidade da pressão  (pressão deslocada, aumentos bruscos de pressão, maças e acerados),
  •        as  ligações e os traços finais em diagonal ascendente,
  •        as mudanças bruscas de inclinação e de forma,
  •        a rigidez do traçado,
  •        as barras dos t em diagonal ascendente,
  •        os finais disparados e os traços pontiagudos,
  •        as rasuras ou corte da assinatura,
  •        a confusão entre linhas,
  •        a falta de distância entre palavras.

A escrita de Renato é organizada, legível e simples, com margens irregulares (relacionadas com sinceridade e inconstância).
Os carateres têm uma dimensão média, com algumas desigualdades e com predomínio das hastes sobre as pernas das letras (refletindo, talvez as suas remotas aspirações).
A forma é caligráfica, arredondada, arcada, infantil, com os traços iniciais e finais inibidos. Observam-se ovais fechados com laço e alguns erros ortográficos (parecendo mais dado à introversão do que à extroversão).
A velocidade aparenta ser lenta (não parece dado a precipitações).
A direção da linha de base não se pode avaliar corretamente, porque Renato preferiu escrever em papel pautado.
As letras encontram-se, ligeiramente, inclinadas para a direita e, às vezes, verticais (os projetos futuros são uma incógnita).
As carateres aparecem ora ligados, ora desligados ou adossados, sem traços exagerados (sinais de alguma instabilidade).
A assinatura é legível, simples e semelhante ao texto (indício de coerência e sinceridade).

Concluímos que nos parâmetros observados da escrita de Renato Seabra não se detetam indícios de agressividade. E, na simplicidade do seu grafismo, não se conseguem descobrir tendências para matar.
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