23/12/13

A curva e o ângulo na escrita manual





As formas curva (Fig. A) e angulosa (Fig. B) constituem os dois principais pilares da grafologia de Moretti. Elas podem observar-se na estrutura das próprias letras e nas ligações das mesmas.
 

Já J.H. MIchon, na descrição dos diversos sinais gráficos, afirmava que a curva e o ângulo constituíam a essência da escrita.

A escrita redonda retarda a progressão do movimento e do ritmo para se concentrar no aspeto formal, ao passo que uma escrita angulosa surge impulsionada para a frente.


Estas caraterísticas gráficas não surgem de modo abstrato, mas são derivadas dos movimentos consecutivos de extensão e de tensão, de abdução e adução, de um modo mais suave na escrita arredondada e de uma maneira mais brusca na escrita angulosa.


A interação equilibrada destas duas orientações do movimento grafoescritural (nem excessivamente redondo nem demasiado anguloso) revela a harmonia do Ego do escrevente, representando uma espécie de compromisso entre o instinto de defesa e de ataque, entre a passividade e a atividade.
Escrita redonda (extraída de A. Vels)
O autor da escrita arredondada terá predisposição para contornar os obstáculos e para se adaptar ao meio ambiente. O utilizador de escrita angulosa tenderá a cortar a direito, sem medir, devidamente, as consequências. Os extremos podem refletir, ainda, a tendência para a prodigalidade e esbanjamento, no primeiro caso, e um acentuado egoísmo e açambarcamento, no segundo.

Uma é comparável a um balão flexível e envolvente, o outro pode comparar-se a um caça-bombardeiro rígido, combativo e repelente. Uma provém de uma personalidade em que predomina a razão, outro, de um indivíduo em que impera a emoção.
Escrita angulosa (extraída de A. Vels)

Cada grafismo é o resultado de uma ação individual, apresentando múltiplas facetas representativas da personalidade de cada sujeito. Portanto, a escrita não se resume a estas duas caraterísticas, existindo outros numerosos fatores que reforçam ou reduzem o seu sentido psicológico.

Do ponto de vista pericial, estes formatos são bastante pertinentes, porque o escrevente que utiliza, normalmente, uma escrita curva, apresentará sinais de hesitação ao fazer, com rapidez e espontaneidade, uma escrita angulosa.
 
 


26/11/13

Traços de arranque e de remate na escrita manual



O aparecimento destes apêndices iniciais e finais nas letras assume um importante papel na área da análise psicológica e pericial, porque não são ensinados na fase da aprendizagem do modelo da escrita, mas desenvolvem-se como criações individuais.

Os traços de arranque e de remate dão-nos, respetivamente, uma ideia da autoimagem do sujeito e do modo como ele reage perante o mundo exterior.

Eles ocupam um determinado espaço, em consonância com o impulso psicomotor, constituindo uma projeção do inconsciente. O seu significado varia consoante a zona onde surgem, sendo tanto mais relevantes quanto mais elevada for a sua desproporção em relação à restante escrita. Um traço amputado e outro demasiadamente grande terão um sentido oposto. Todavia, qualquer interpretação será feita de acordo com o contexto e com o ambiente da escrita.

A aceção psicológica varia também conforme a forma que os traços assumem. Se forem curvos, projetarão uma imagem de menor rigor do que se descreverem ângulos. De um escrevente de caráter dócil e agradável não são de esperar gestos angulosos, porque estes refletem maior agressividade.

Escrever uma palavra sem grandes prolongamentos iniciais e finais é como abordar uma questão de modo sucinto e sem rodeios, indo diretamente ao assunto. Enredar com traços desnecessários é perder tempo com factos acessórios.

Se a pressão exercida for débil ou firme, poderá indiciar sinais de fragilidade ou de fortaleza. Comparável a um sujeito que ao cumprimentar o amigo encosta delicadamente os dedos à sua mão ou àquele que o aperta tão intensamente que lhe comprime os dedos.

Os traços complicados e extravagantes poderão exprimir uma necessidade de enfatizar as qualidades que o escrevente possui ou mascarar as que se julga possuir. Será natural que as pessoas que possuem estas marcas se exprimam com boa fluência verbal e gostem de exibir os seus predicados.

30/10/13

Workshop “A escrita como espelho do interior”


 
 

    Programa

1.  Fundamentação da grafologia.

2.   Caraterísticas essenciais da escrita e seu significado psicológico.

3.   Observação e comentário sobre exemplares manuscritos das fases da imitação, da personalização, da consolidação e da própria degradação da escrita.

4.   Possibilidade de observar algumas caraterísticas da própria escrita.

Espaço de realização: Escola Superior de Educação (Porto), junto ao Hospital de S. João

Horário: 20 de novembro de 2013, 4ª feira, das 14,00 às 18,00

Distribuição gratuita de um dossiê com documentação, em suporte papel, e bibliografia, em suporte eletrónico.

 Valor de inscrição: 20 euros 

Pagamento através do NIB. 003502840000046290086

Por favor, envie nome, telefone e o comprovativo do pagamento até 10 de novembro, para o email afhsousa@hotmail.com

Será passado um Diploma de Participação

      As inscrições são limitadas.

      Outros esclarecimentos podem ser solicitados por email ou pelo    

        telefone 918722706.

25/10/13

Escrita de Salvador Dali


Artista surrealista e extravagante, de caráter excêntrico e anarquista, possuidor duma linguagem onírica e simbólica.

Pintou mais de milhar e meio de quadros com figuras estranhas.

Numa mistura de motivos que só existiam na sua fértil imaginação, o espetador tem que desvendar as constantes conotações da sua obra interpenetrada de objetos psicanalíticos.

As fraquezas tornam-se forças e torrentes de impulsos tornam-no inconformista, parecendo semear o caos cósmico povoado por entes desconformes.


                                                                                                               A Tentação de S. António
Os vários géneros e subgéneros da escrita de Dali variam constantemente. Mas a originalidade é desconcertante. Surgem letras simplesmente esboçadas e outras bem desenhadas. O modo como ocupa o espaço da página parece caótico. Há letras que ocupam, por si só, mais espaço do que palavras inteiras. Não se verifica nenhum alinhamento nas margens da folha. A dimensão dos carateres não obedece a nenhum critério de proporcionalidade: umas vezes minúsculos, quase invisíveis, e outras grandes. As maiúsculas exageradamente elevadas e a pressão forte e irregular manifestam uma potência vital impulsiva e inconstante. O génio rebusca, no próprio inconsciente, o ímpeto ingénuo que o leva a destacar-se dos demais.

Os traços iniciais e finais das letras, ora se prolongam desmedidamente, ora se tornam como que inibidos. As formas angulosas misturam-se com espirais. A ligação varia imenso, encontrando-se palavras com todas as letras desligadas e palavras ligadas entre si.

Este texto poderia ser encaixilhado como uma das telas de Dali, porque também ele revela como as suas obras o predomínio do irracional, a oposição à norma, a deformação da realidade, a turbulência do traçado, as formas fragmentadas e uma meticulosidade desconcertante.
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18/09/13

Cartas anónimas



Extrato de carta anónima

 O escrevente mantém o anonimato em cartas ou panfletos que escreve sem os assinar, nem se identificar, geralmente, com o objetivo de denunciar ou censurar alguém.
 
A pessoa anónima, para tornar mais difícil a sua identificação, pode simular menor cultura, empregando termos mais vulgares do que aqueles que normalmente utiliza; pode dar erros ortográficos, intencionalmente; pode usar uma linguagem artificial. Por isso, o perito tem que estar atento àquelas expressões que, por desatenção ou inconscientemente, escapam ao autor da carta. Se aparecem termos cultos, se há palavras difíceis bem acentuadas, se existe artificialidade.
 

As alterações das letras mais comuns acontecem na forma: nas letras tipográficas nas maiúsculas, na escrita infantil, numa escrita completamente diferente e em alterações da dimensão. O disfarçante pode escrever com uma mão diferente da habitual.
Mas existem aspetos que escapam ao autor da grafia anónima: o espaço entre as letras, entre as palavras e entre as linhas e a própria estrutura da página; o movimento grafoescritural torna-se mais lento e com menor fluidez; surge uma certa artificialidade e uma rigidez controlada; as ligações entre letras e continuidade do traçado são difíceis de disfarçar; a pressão e o ritmo podem denunciar a existência de uma contradição.

O perito de escrita manual prestará atenção redobrada aos gestos-tipo coincidentes (ângulos, bucles, arpões, ligações, abertura dos ovais, acerados) que são aspetos importantes para desvendar o anonimato.

 

Não é fácil descobrir o autor dos anónimos, especialmente se não houver suspeitos ou se a população for numerosa. Além da análise da escrita, pode também ser fundamental o próprio conteúdo. Nestes casos, para filtragem, recorre-se à sociolinguística e ao estudo de outras circunstâncias ou factos conjunturais.

A anonimografia pode ser, simplesmente, fruto de uma psicomania de escrevente, de pessoas imaturas que não querem dar a cara, mascarando-se com todos os meios ao seu alcance.

O importante para descobrir o autor duma carta ou escrito anónimo é ir ao encontro de alguns suspeitos, porque uma grande quantidade de presumíveis autores torna a tarefa demasiado árdua.
 

Para encolhermos o leque de opções teremos que colocar as questões: qual a vantagem que pessoa anónima pretende obter ou que interesse tem em prejudicar outrem? Trata-se, normalmente, de alguém que está muito próximo do indivíduo visado.
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27/08/13

Desenvolvimento da escrita




1º Imitação

Menina de 7 anos, 1.º ano de escolaridade, mês de junho. Letras grandes e coladas, com dificuldade em traçar as mais difíceis.






A criança aos 7 anos entra no mundo do adulto através da aprendizagem da escrita, de um modo emocional e racional, que lhe abre um universo ainda desconhecido.

Os carateres são justapostos horizontalmente uns a seguir aos outros, formando palavras com determinado sentido.

A realização dos minúsculos gestos com o instrumento gráfico desenvolve a psicomotricidade (motricidade fina).

Ao desenhar, sucessivamente, as formas das letras na folha de papel vai desenvolvendo os conceitos de movimento, de espaço e de tempo.





2º Interiorização

Menina de 9 anos, 3.º ano de escolaridade. Liga algumas letras e coordena melhor os movimentos.


 


A criança sabe comparar e relativizar. As letras adquirem um valor distintivo. O significado dos vocábulos não provém da autoridade do professor mas da forma e da posição que os carateres ocupam dentro da palavra. Cada palavra é integrada no sentido global da frase.

As normas são respeitadas, porque permitem a inteligibilidade do texto.

As regras são, igualmente, uma necessidade para a convivência no grupo.



3º Contestação

Menina de 15 anos, 7º ano de escolaridade. Abandona o modelo caligráfico e as letras surgem adossadas ou separadas.





O pensamento da criança torna-se mais abstrato, distanciando-se das concretizações apreendidas.
As letras perdem a carga afetiva e sofrem modificações.

A criança contesta a autoridade e questiona o modelo ensinado pelo professor, iniciando um estilo próprio, inspirado num familiar ou num amigo com quem se identifica.
 
 
 
4º Personalização

Professora, 50 anos. Escrita com traços personalizados, revelando alguma reserva e de determinadas etiquetas.

 


As transformações psicofísicas da adolescência levaram à experimentação de novas formas e de diferentes movimentos.

A necessidade de autonomia abriu caminho ao desenvolvimento de um modelo pessoal com o qual o escrevente se identifica, resultando uma escrita personalizada com sinais próprios e com significado psicológico específico.

20/08/13

Profundidade versus superficialidade da escrita




Escrita superficial (A) e escrita profunda (B) observadas ao microscópio

Escrita profunda e superficial são dois polos opostos e complementares da escrita. O papel pode ser penetrado com força pelo instrumento gráfico, deixando um sulco profundo ou ser levemente tocado, deslizando com suavidade sobre a sua superfície.

No primeiro caso, o papel fica cheio de sulcos, porque a caneta penetra no papel e rasga as suas fibras, como um arado que lavra a terra bravia.

No segundo caso, o suporte mantem-se quase inalterado, à semelhança de uma superfície vítrea, em que a caneta desliza suavemente.

Na área da perícia da escrita manual, a profundidade e superficialidade assumem hoje em dia um papel fundamental, porque a pressão é um elemento relevante na avaliação da constituição psicossomática do escrevente.
A pressão exercida pela caneta está relacionada com a força vital (energia psicofísica, potência da libido) com a intensidade de sentimentos, com a sensualidade, com a capacidade de resistência, a firmeza ou a insegurança, a adaptabilidade, a força do impulso vital, a produtividade criadora e a sensibilidade aos estímulos externos.
Quando a pressão é profunda, estamos provavelmente perante um indivíduo com grande força emocional e física, persistente, corajoso, de libido forte, com poder de persuasão, com tendência ao comando, ambicioso, persistente, materialista, agressivo e independente. Num ambiente gráfico desarmónico, as tendências revelam-se mais negativas, representando fraca sensibilidade, escassa recetividade, fricções sociais ou depressão (se a escrita for lenta).
Quando a pressão é superficial, o escrevente tende a manifestar grande sensibilidade, delicadeza, capacidade de adaptação, recetividade, boa memória (M. Pulver), sentido crítico, altruísmo, reserva, recusa de conflitos sociais, compostura, desembaraço, predomínio da força inteletual e espiritual sobre a muscular e material. Porém, se o ambiente gráfico for desarmónico, poderá imperar a vulnerabilidade, a fraca combatividade, a inconstância e a influenciabilidade.