21/08/08

Direcção da linha

Escrita com linhas descendentes, de aluno do 3º ano
A direcção da linha consiste numa dada orientação da linha de base da escrita e está relacionada com a estabilidade, conduta de acção, concretização da realidade, confiança em si mesmo e nos objectivos a alcançar, estado anímico, variações de ânimo e humor, cansaço, entusiasmo, flexibilidade, rigidez, fadiga, depressão.

A direcção divide-se nas seguintes espécies:
  • Ascendente é a linha que sobe desde início até ao fim. Pode indicar optimismo, ambição, extroversão, entusiasmo, autoconfiança, imaginação, iniciativa, impulsividade, insatisfação, euforia, excitação, nervosismo, desejo de fuga.
  • Descendente é a linha que desce desde o início até ao fim. Pode expressar pessimismo, tristeza, fadiga, desânimo, debilidade moral, cedência, renúncia sistemática, sentimento de fracasso, falta de energia e de motivação para se afirmar, indícios de depressão (na fig. linha descendente).
  • Convexa é a linha que sobe e volta a descer, formando um arco. Pode exprimir entusiasmo inicial, desânimo seguinte, instabilidade, carácter impaciente.
  • Côncava é linha que desce e volta a subir, formando um arco invertido. Pode designar desânimo inicial na acção e tentativa de recuperação, instabilidade.
  • Horizontal é a linha recta que termina à altura em que começou, ou seja, apresenta-se paralela à parte superior da folha. Pode significar estabilidade, actividade, autodomínio, constância, firmeza, ponderação, coerência, equilíbrio, empenho, pontualidade, atenção, capacidade psíquica, convencionalismo.
  • Escalada ascendente é tipo escada que sobe. Pode revelar impulsos persistentes mas travados, força de vontade, luta contínua contra o optimismo desmedido.
  • Escalada descendente é tipo escada que desce. Pode ser indicativo de luta contra a depressão.
  • Ondulada é semelhante a uma serpentina. Pode indicar flexibilidade, tacto, sensibilidade, diplomacia, sentido de humor, adaptabilidade, falta de estabilidade, astúcia.
  • Saltitante (scattante na escola morettiana), as letras parecem saltitar acima e abaixo da linha de base. Pode ser sinónimo de receptividade excessiva, actividade variada, sensibilidade artística, criatividade musical, impulsividade, vivacidade, plasticidade, descontrolo nervoso, agitação interna, irritabilidade.
Como é a sua letra? Nunca é demais recordar a importância do contexto e que o mesmo sinal pode ter significados opostos.

28/07/08

Ordem

Escrita ordenada, com boa distribuição gráfica, de adulto, com formação superior
A escrita ordenada tem a ver com a clareza ou falta dela na organização da página, dos parágrafos, da pontuação, na presença ou não de manchas de tinta; e, ainda, com a disposição do texto na folha, o espaçamento entre linhas, entre palavras e entre letras, com as margens direita, esquerda, superior e inferior.
De um modo geral, a ordem fornece informações sobre a organização e clareza do pensamento do escrevente, sobre o seu sentido de ordem interna, a capacidade de organização e de planificação, o relacionamento com os outros, ...
As espécies da ordem, a seguir mencionados, devem ser sempre interpretados dentro dum determinado contexto positivo ou negativo e nunca isoladamente.
  • Uma escrita cuidada e ordenada pode ser sinal de ordem, precisão, atenção, clareza e capacidade de adaptação.
  • Uma escrita harmoniosa ou desigual metódica (termo de Moretti) pode significar intuição, originalidade, criatividade, imaginação, pensamento divergente e equilíbrio dinâmico.
  • Uma escrita clara, em que cada letra é legível individualmente, exprime clareza de espírito, simplicidade e transparência comportamental.
  • Uma escrita original pode ser sinal de intuição, de criatividade e de liberdade.
  • Uma escrita sóbria, proporcionada, simples, fluente, sem traços inúteis, pode indicar prudência, comedimento, bom senso, empenho, assimilação, adaptabilidade, simplicidade e maturidade.
  • Uma escrita artificial, bizarra ou complicada, pode expressar o desejo ou necessidade de chamar a atenção.
  • Uma escrita descuidada pode ser sinónimo de desleixo, superficialidade e cedência.
  • A escrita confusa, em que as letras se confundem com as da mesma linha ou com as das linhas próximas, pode ser sinal de fraca capacidade de discriminação de comportamentos, de confusão de ideias, de impulsividade e de inconstância.
  • Uma escrita ilegível pode exprimir precipitação, impaciência, improvisação, evasão às responsabilidades e pequeno professor (análise transaccional de Viñals e Puente).

O leitor poderá indo observando as características da sua escrita e vendo se algumas das tendências enunciadas lhe assentam bem.

22/07/08

Escrita com mãos, pé e boca

A escrita é um acto cerebral. Os impulsos motores estão em constante interacção com o cérebro, activando as células nervosas, chegam ao membro ou órgão que segura a caneta. A estrutura gráfica torna-se uma actividade espontânea e automatizada, através dos movimentos de flexão (de cima para baixo), abdução (da esquerda para a direita), extensão (de baixo para cima) adução (da direita para a esquerda). Não existem escritas iguais de pessoas diferentes e não existem escritas essencialmente diferentes da mesma pessoa. Os aspectos que mais divergem, nas escritas que vou apresentar, são mais de ordem formal do que substancial, e com um treino adequado seriam reduzidas ou anuladas todas as divergências.
As expressões “palavras de cristal” foram escritas, em Julho de 2008, com esferográfica azul, por um adulto com 60 anos, do sexo masculino, casado, professor, de nacionalidade portuguesa, destro. Foi a primeira vez que escreveu com a boca e com o pé direito.

Escrita A - Feita com a mão direita, adulto, 60 anos.
Apresenta-se inclinada para a frente de forma acentuada, bastante ligada de forma semi-angular, mais alta do que larga.

Escrita B - Feita com a mão esquerda,adulto, 60 anos
A inclinação é variada com tendência para a esquerda, com a haste do d côncava para a esquerda, a ligação é agrupada e angulosa, traçado é vacilante.

Escrita C - Feita com a boca, adulto, 60 anos
Os bucles e os ovais apresentam-se abaulados, a inclinação é para a direita, traçado muito vacilante, maior espaço entre palavras.

Escrita D - Feita com o pé direito, adulto, 60 anos
Sentado, folha no chão segura pelo pé esquerdo, com a esferográfica colocada entre o hálux e o 2º pododactilo.
A dimensão é maior, com l , d e c deformados, devido à natural inabilidade.

Concluindo
As escritas D e C assemelham-se entre si, são rudimentares como se tivessem sido feitas no início da aprendizagem, quando a criança ainda não adquirira nem ritmo nem domínio das formas. Os formatos B e A são, também, semelhantes entre si e algumas diferenças ficam a dever-se ao facto de o escrevente ser dextro e escrever com a mão esquerda.
Ambas as expressões mantêm uma estrutura parecida, especialmente nas letras p, c, r, s e na t, com o traço a meio da haste.
Os movimentos neuro-musculares subjacentes as estas escritas obedecem ao mesmo padrão neurológico cerebral.
Por isso, as estas escritas, feitas pelo mesmo indivíduo, com a mão direita, com a mão esquerda, com a boca e com pé, conservam características semelhantes e revelam, de igual modo, a personalidade do mesmo escrevente.

20/07/08

Jules Crépieux-Jamin

  • Jules Crépieux-Jamin (1858-1940), médico francês, discípulo de Michon, fez modificações às teorias do mestre (deixando de atribuir valor fixo aos sinais gráficos) e iniciou um novo método de análise grafológica, melhor fundamentado psicologicamente, concebendo a escrita como movimento. Ele é, geralmente, considerado o verdadeiro fundador da grafologia. Criou a École Française (1929), publicou, além de outros títulos, L`Écriture et le caractère (1888), Traité pratique de graphologie, Les éléments de l'écriture des canailles e ABC de la Graphologie (1927), a sua obra clássica, que teve duas edições em português (1943). O autor estabeleceu que o movimento gráfico e, por conseguinte, toda a escrita, apresentava sete características (géneros) fundamentais que, por sua vez, se subdividem em centenas de espécies:
  • A ordem consiste na distribuição das letras, das palavras e das linhas no espaço e relaciona-se com a capacidade de adaptação do escrevente.
  • A dimensão consiste no tamanho das letras e está relacionada com a expansão dos impulsos e necessidades.
  • A forma consiste no formato ou modelo de escrita e pode evidenciar os interesses e preocupações.
  • A direcção é a trajectória seguida pela linha base da escrita e pode assinalar as variações de humor ou estabilidade.
  • A pressão é a força exercida sobre o papel, podendo indiciar energia ou vitalidade.
  • A velocidade traduz-se na rapidez do traçado, sendo capaz de evidenciar actividade e inteligência.
  • A continuidade é o estilo de ligação entre as letras e palavras, podendo assinalar intuição e constância.


Estes géneros ainda hoje são estudados pelos grafólogos e é através da sua análise que se chega às várias características da personalidade do escrevente. Para Crépieux, não se pode interpretar o movimento da escrita, sem ter em consideração o contexto em que se apresentam as várias espécies. O autor formulou a teoria das resultantes, produto de vários sinais, e assim se expressa: "Todo o sinal gráfico sofre influências de um outro sinal". E para avaliar o contexto global, Crépieux criou os conceitos de harmonia e de desarmonia, que serviam para caracterizar certos valores da personalidade. Ele demonstrou, ainda, que a idade e o sexo não podiam ser determinados pelos sinais grafológicos.
Como já referi neste blog, foi com o caso do hebreu Alfred Dreyfus, em 1894, que a grafologia judicial ganhou imenso relevo, ao descobrir o verdadeiro autor dum documento falsificado que levou aquele judeu, oficial do exército francês, ao exílio e mesmo à prisão. Crépieux-Jamin, quando lhe foi entregue a peritagem, em vez de se basear unicamente na comparação das simples letras, concentrou, especialmente, a sua atenção sobre os sete géneros atrás referidos. A falsificação da letra de Dreyfus foi, então, atribuída ao verdadeiro autor, um seu companheiro de armas e oficial francês, Esterhazy, que foi incriminado. Dreyfus foi consideradado inocente e libertado. No desencadeamento deste processo teve um papel fundamental um artigo do escritor Émile Zola, no jornal L`Aurore, em 13 de janeiro de 1898, com o título J`accuse (Eu acuso).
Crépieux era um grafólogo de espírito aberto, afirmando que os conceitos e as terminologias devem mudar com as épocas e com as mudanças da sociedade. Ulteriores investigadores grafológicos, como Ludwig Klages, Max Pulver e Saudek seguem as suas pegadas.

17/07/08

A assinatura A foi feita por Sofia ou por Luísa?

Luísa e Sofia têm, respectivamente, 22 e 28 anos, são solteiras e possuem formação superior. As assinaturas de cada uma (A e B) foram feitas na mesma data e com uma esferográfica preta, bico fino. Uma das meninas fez também a assinatura A. Através da análise grafológica vou procurar sintetizar as características das três assinaturas, a fim de identificar a autoria da assinatura A.


Método


  • Recolha presencial das assinaturas de Luísa e de Sofia para as confrontar com a assinatura A.
  • Inventariação das características da assinatura A, dentro dos géneros e subgéneros das escolas francesa e italiana.
  • Comparação das diferenças e semelhanças da assinatura A com as das assinaturas presenciais, B e C.
  • Identificação de alguns gestos-tipo.
  • Distinção entre elementos essenciais e acessórios.
  • Atribuição do grau de certeza, com base nos elementos preponderantes.

Instrumentos

Máquina fotográfica, scanner, Adobe Photoshop CS2, projector, lupa hi-power10x/36d, esquadro, régua

Semelhanças e diferenças entre A e B

  • Na fig. A, o espaço entre letras, especialmente na palavra Luísa, é curto; o espaço entre as letras, em B, especialmente na palavra Luísa, é grande.
  • O espaço entre palavras, em A, é estreito (2 mm); em B, o espaço entre palavras é 6 mm entre as primeiras duas palavras e de 4 mm entre as palavras seguintes.
  • O comprimento total da assinatura A é de 57 mm; o comprimento da B é de 80 mm, sem contar a projecção da rubrica para a frente.
  • A angulosidade da fig. A é maior do que em B.
  • A rubrica da fig. A é angulosa e parte por debaixo da palavra Seixas; em B, existe uma curva sem ângulo que parte da última letra.
  • A linha de base, em A, mantém a horizontalidade; em B, a linha de base apresenta-se em escada ascendente.
  • As letras iniciais maiúsculas partem, em A, da linha de base; em B, as mesmas letras maiúsculas iniciam abaixo da linha de base.
  • Na fig. A, as hastes são ligeiramente côncavas para a esquerda, especialmente a do S da palavra Seixas; hastes de B apresentam-se um pouco inclinadas para a direita.
  • As letras i e u são mais estreitas do que em B.
  • A letra i de Luísa está colada à letra s da sílaba seguinte; em B, as letras i e s de Luísa estão distantes.
  • A letra S maiúscula da palavra Sousa, em A, está separada do o; em B, o S de Sousa está ligada ao o.
  • Os ovais, em A, possuem grandes aberturas para a direita; em B, os ovais contém uma pequena abertura para a direita.
  • O traço do a da palavra Luísa, na fig. A , é muito semelhante ao do a da palavra Sousa e apresenta a mesma angulosidade.
  • A letra n de Ana tem duas pernas; em B, a mesma letra apresenta apenas uma perna e noutra assinatura contrastada, feita pela mesma autora, também apresenta só uma perna.
  • Na fig. A, os zig-zags do s final na palavra Sousa e a separação da rubrica final revelam hesitação e retardamento; em B, a rubrica está ligada à assinatura e revela decisão, agilidade e rapidez.
  • No apelido Seixas, na fig. A, as letras são praticamente da mesma dimensão e o s está ausente; em B, o mesmo apelido apresenta-se gladiolado e completo.
    As letras i e u são mais estreitas em A do que em B.
  • As hastes são mais curtas na fig. A do na B.
  • A palavra Sousa, na assinatura A apresenta traços filiformes e tremidos; na B, a mesma palavra apresenta menor filiformidade e maior precisão.
  • Na fig. A, o primeiro traço do x de Seixas está ligado ao i e inicia-se da esquerda para a direita, subindo em diagonal ascendente e o segundo traço parte também da esquerda para a direita em diagonal descendente; em B, o primeiro traço do x é feito na direcção descendente, partindo em diagonal da esquerda para a direita e o 2º, em diagonal descendente, também foi feito da direita para a esquerda e está separado do i.
  • Os pontos dos ii (pinta e acento grave) estão colocados mais a baixo em A do que em B e feitos aqui com maior precisão: redondo o primeiro e comprido o outro.
  • A pressão apresenta um grau médio, tanto em A como em B.

    Características da C
  • A pressão é forte.
  • A ligação apresenta alguma angulosidade;
  • A linha de base mantém a horizontalidade e a mesma direcção foi observada noutras assinaturas da mesma autora.
  • As letras maiúsculas iniciais partem da linha de base.
  • O espaço entre letras é curto, verificando-se adossamentos.
  • O espaço entre palavras é apenas de 2 mm.
  • Apesar da assinatura C conter mais 4 letras do que A e B, tem apenas o comprimento de 54 mm.
  • As letras são estreitas.
  • As hastes são côncavas para a esquerda, especialmente a da palavra Seixas.
  • A pinta do i de Seixas é mais natural e dinâmica do que a da mesma palavra em A.
  • O primeiro traço do x de Seixas a ser feito foi o que parte da esquerda e sobe em diagonal para a direita e é está ligado ao i.
  • As hastes são curtas.
  • Não apresenta soldagens nem colagens.
  • A maiúscula S da palavra Sousa está adossada à letra o.
  • Ovais contém pequenas aberturas na parte superior.


Conclusão

  • A pressão mais leve em A do que em C e a colagem presente na assinatura A ficou a dever-se, provavelmente, à preocupação de Sofia em imitar bem a assinatura de Luísa, visto que noutros documentos escritos pela primeira autora a pressão é forte.
  • Constata-se também que o movimento em A é menos dinâmico do que em B, facto que tornaria difícil atribuir a assinatura A à autora da B.
  • A própria pinta do i de Seixas da fig. A é menos natural e dinâmica do que a da assinatura B.
  • Perante as múltiplas características semelhantes atrás referidas, especialmente a direcção da linha, a distribuição espacial, a orientação dos traços da letra x , a rubrica, a abertura dos ovais e o dinamismo gráfico, pode concluir-se que a autora da assinatura A foi Sofia, que tentou imitar a grafia da Luísa.

10/06/08

Girolamo Moretti

Girolamo Moretti (1879-1963), italiano, frade franciscano, homem de grande intuição, elaborou um método grafológico original a partir de 1905. Em 1914, sob o pseudónimo de Umberto Koch, publicou um Manual de Grafologia. Outras obras se seguiram: Pecado. Psicologia e Grafologia dos 7 Pecados Capitais, 1937; Tratado Científico de Perícia Gráfica sob base Grafologica, 1942; Grafologia Somática, 1945; Grafologia Pedagógica, 1947; Grafologia das Atitudes Humanas, 1948; Os Santos da Escrita, 1952 ; Insuficiências, Anomalias da Psique e Gafologia, 1962; A Paixão Predominante, 1962. E obras póstumas: 4 volumes de Análise Grafológicas, 1966, 1970, 1972, 1976; Os Grandes da Escrita, 1966; Grafologia e Pedagogia na Escola Obrigatória, 1970; Autobiografia, 1977.
Dotado duma atitude psicológica perspicaz, sem estudos específicos de psicologia, Moretti conseguiu transformar as próprias intuições em afirmações científicas. O seu método rigoroso e objectivo, baseia-se em "segni" precisos e quantificáveis que, na sua complexidade dinâmica, se tornam reveladores da personalidade do escrevente, visto que, segundo Palaferri, reflectem, directamente, a estrutura constitucional e psicológica do sujeito.
Moretti tinha uma visão unitária, complexa e dinâmica do homem, apesar de não se ter preocupado com a sistematização das categorias. Preocupou-se mais com a sua dinâmica e interacção. Afirmou que cada sinal grafológico devia ser considerado no seu movimento e não na sua forma. Classificou os sinais (segni) em substanciais, modificantes e acidentais. O seu sistema apresenta categorias ou géneros semelhantes aos de Crépieux-Jamin e outros originais. Criou uma tipologia caracterológica da personalidade humana: Cessione, Atesa, Resistenza e Assalto. A grafologia científica deve-lhe muito. Fez milhares de análises grafológicas. Os seus discípulos F. Giacometti, F. Merletti, N. Palaferri, S. Ruzza, L. Torbidoni, entre outros, continuaram a sua obra. Fundaram o Instituto G. Moretti e o ensino universitário da grafologia na Universidade de Urbino, em 1977. Hoje, publicam-se as revistas Scrittura e Scienze Umane & Grafologia, dentro do método moretiano. Este método atribui grande importância à bipolarização curva-ângulo, vontade-pensamento.
A obra de Moretti tem um valor mundial e continua a ser objecto de estudo e de congressos internacionais.

22/05/08

Escrita da Criança

A análise da escrita infantil pode ajudar a compreender a criança dentro do ambiente familiar e escolar e a orientá-la na sua fase de desenvolvimento. Este tipo de análise tem uma leitura diferente da do adulto, porque as realidades são diferentes. A personalidade da criança encontra-se numa fase de desenvolvimento e a própria escrita está igualmente em evolução. O desenvolvimento da criança e problemas afectivos, falta de atenção, hiperactividade e disgrafia manifestam-se nos vários géneros da escrita.

Na aprendizagem da escrita a inteligência é um factor determinante. Os débeis mentais, mesmo sem dificuldades motoras, não escrevem como os normais da mesma idade. Todavia não é conveniente tirar conclusões sobre o nível de inteligência na criança através da sua escrita. Se uma escrita desenvolvida pressupõe a uma boa inteligência, nem sempre uma escrita pouco desenvolvida corresponde a uma fraca inteligência. O grafólogo é capaz de dizer se um estudante considerado inteligente é criativo e original ou é apenas assimilador e reprodutivo.

Para J. Peugeot há factores que constituem índice de inteligência como a velocidade, sem perder qualidade, a clareza e harmonia do conjunto, a personalização precoce dos m, n e p, a ligação de várias letras seguidas e a simplificação de traços dispensáveis, uma boa pressão e escrita pequena, desde que associada a um bom nível grafomotor. O próprio Alfred Binet, pedagogo e psicólogo francês, numa fase inicial, julgava que, através da escrita, poderia avaliar a inteligência, mas posteriormente optou por testes de compreensão da linguagem.

Ajuriaguerra e a sua equipa estudaram, profundamente, a escrita infantil e construíram uma escala composta por 25 itens que são classificados em três rubricas: ordem, falta de destreza e os erros de forma e de proporções. A sua escala permite avaliar a idade grafomotora da criança, comparando-a com a idade cronológica. Este autor atribui muita importância à irregularidade do espaço entre as letras, por se tratar dum gesto expressivo das dificuldades de controlo. Refere que existem casos em que a correcção das anomalias da escrita resolveu os problemas da criança, devido ao circuito estabelecido nas duas direcções entre o cérebro e o gesto gráfico. Segundo o autor, um gesto repetido torna-se habitual e condiciona o estado psicológico.

Na evolução da escrita distinguem-se três fases: pré-caligráfica (dos 5-6 até aos 8-9 anos), caligráfica (dos 10 aos 12 anos) e pós-caligráfica (dos 13-16). Na 1ª fase, as letras curvas apresentam-se abauladas, aparecem vários retoques, a direcção das linhas e a inclinação das letras apresentam irregularidade, as margens são pequenas ou estão ausentes. Na 2ª, o modelo é bem imitado, havendo uma melhor gestão das ligações, do espaço e dos vários géneros. E na fase pós-caligráfica, a velocidade aumenta e a escrita torna-se mais personalizada.