24/09/10

Premissas básicas da análise pericial forense

O movimento gráfico resulta da conjugação de factores psíquicos, neurológicos e somáticos do indivíduo, que fazem com que o acto da escrita seja mental, único e irrepetível.


• A observação do suporte é um passo essencial na avaliação da autenticidade da escrita.


• Não há imitações perfeitas, porque não existem personalidades que se correspondam completamente, pois se duas escritas (ou assinaturas) forem exatamente iguais uma delas é falsa.


• Os traços da escrita não são avaliados como um produto isolado, mas contextualizados e integrados num processo dinâmico.


• Quanto mais espontâneo se apresentar o grafismo, maior é a sua representatividade.


• Pequenas diferenças na escrita não contrariam, mas indiciam a autoria, porque toda a personalidade é complexa e dinâmica.


• Provar com certeza absoluta que dois grafismos pertencem a determinada pessoa torna-se uma tarefa muitas vezes  impossível, porque é desconhecer as inumeráveis possibilidades de coincidência ou de imitação.


• O recurso ao sistema de identificação biométrico (caneta com sensores) pode ser uma mais-valia para reforçar a prova da autenticidade ou da falsidade.


• As conclusões devem ser claras, concretas, concisas e coerentes.

16/09/10

Rubrica ou auto-retrato "à la minute"

Centenas de internautas manifestaram descontentamento com as próprias assinatura e rúbrica, tendo-me abordado para que lhes sugira uma assinatura, supostamente, mais apropriada ao seu estatuto socioprofissional. Disse, intencionalmente, “supostamente”, porque não existem assinaturas feias ou bonitas.

Assinaturas de Hitler da Enciclopédia digital da II G. Mundial


A assinatura é a foto tipo passe do nosso Cartão de Cidadão, é um carimbo pessoal. Alterando a fotografia ou o carimbo, retiramos autenticidade a um documento.
A motricidade fina é individualizada e individualizante. Os movimentos gráficos contrários à tendência de cada indivíduo tornam-se artificiais e não se coadunam com a autenticidade. A modificação da assinatura surge, naturalmente, com a evolução da personalidade.
A assinatura, por outro lado, está muito relacionada com a restante escrita. As caraterísticas que se verificam na assinatura estão também patentes no texto, porque o autor é o mesmo.
Uma pessoa ambiciosa, que se autoconsidera superior aos outros, exibirá uma assinatura com maiores dimensões ou com elementos desnecessários.
Uma pessoa que se despreza a si própria ou que se culpabiliza, com ou sem razão, dará menos relevo à própria assinatura e pode cortá-la.
Uma assinatura clara, legível, proporcionada, com pressão firme e ajustada ao texto será sinal de uma autoimagem adequada.
O grafólogo não deve substituir o assinante. Pode é dar-lhe uma parecer sobre a sua assinatura, sobre o que ela representa, sobre o tipo de assinatura mais difícil de falsificar.
Caro internauta, vale mais uma peça de roupa que nos assente bem do que uma luxuosa que não nos sirva.
Transcrição de alguns pedidos que me foram feitos:
“Até hoje, quase 30 anos não consegui fazer uma assinatura e nem rubrica, e isso me incomoda sempre tenho que assinar documentos e fico com aquela cara escrevendo meu nome rss, poderia me ajudar?”
poderiam me enviar algum modelo de rubrica para o meu nome ou me indicar onde eu poderia encontrar alguém que fizesse esse tipo de serviço.”
“por gentileza poderia me ajudar a criar uma rubrica? Não tenho muita criatividade.
Meu nome completo é… :”
“sou medica e tenho mt dificuldade pra criar uma q seja rápida de escrever! “
“Meu nome é … e tenho certas dúvidas quanto a assinatura, a realidade é que, como advogado preciso ter uma rubrica onde somente EU tenha a certeza que estive naquele local e assinei o papel.”
“Sou advogado e gostaria que o senhor por ter mais experiência nesse ramo, me ajudasse.”
Gostaria que o Sr. me enviasse alguns modelos de possiveis rubricas para que eu possa me identificar nas assinaturas de minhas documentações”
https://www.facebook.com/CentroGrafologiaDocumentospiaForense?ref=hl


08/09/10

A grafologia e o inconsciente


S. Freud (1856-1936) falava da consciência como a parte visível dum iceberg mental e C. Jung (1875-1961) descobriu que existe em cada pessoa algo inconsciente (primário e instintivo) que procura a oportunidade de se manifestar no momento oportuno, sem que tal facto se torne consciente.


O acto da escrita é como uma roupagem que esconde ou protege a imagem do escrevente, exibindo atributos ou escondendo defeitos, que transparecem nas suas projecções inconscientes.


Quando os movimentos gráficos tendem a expandir-se e a volver-se para a direita pode ser indício de o escrevente sentir mais energia; se as palavras estão distantes umas das outras pode significar que o escrevente se pretende autoproteger, defendendo o próprio território; e, se existem cortes, omissões, rasuras e interrupções, pode ser sinal de insegurança, incongruência e instabilidade emocional.


A escrita costuma, assim, ser interpretada simbolicamente. Mar Pulver (1989-1952) atribuiu uma dimensão simbólica ao modo de ocupação do espaço da folha de papel. Por exemplo, uma escrita microscópica costuma associar-se a sujeitos inibidos e uma escrita de grandes dimensões, a sujeitos extravagantes.


Cabe ao perito, com uma boa formação psicológica, interpretar as emoções que ficam marcadas, apesar do sujeito escrevente não ter delas consciência.


De facto, o inconsciente ocupa uma grande dimensão dentro do ser humano. As contradições que marcam, tantas vezes, determinada personalidade, são ocasionadas por factores inconscientes não admitidos, que acabam por vir ao de cima sob a forma de lapsus calami (escorregadelas), porque não reconhecemos que a maior parte do iceberg está submerso.

05/09/10

Escrita e personalidade


Uma grande parte dos textos manuscritos apresenta algumas semelhanças, mas todos eles se distinguem por pequenas diferenças, porque a expressão gráfica expressa o temperamento (características emocionais), o carácter(valores, sentimentos e atitudes) e a inteligência (atenção, memória, adaptação, originalidade, raciocínio) de cada sujeito escrevente. Uma certa igualdade torna-se pertinente para que possa existir a compreensão e o diálogo entre os indivíduos e uma grande diferenciação é necessária para que ocorra a diferenciação e a individualização.


Apesar de toda a comunidade linguística partir do mesmo modelo de escrita, bem depressa cada escrevente o adapta e deixa nele as suas marcas pessoais, fruto de vivências únicas e de factores genéticos ímpares.


Desta forma, a análise da escrita constitui uma preciosa fonte de recursos para o discernimento de tendências fundamentais da personalidade, especialmente numa época em que os comportamentos individuais podem atingir repercussões universais.


Não obstante a enorme importância dos pequenos gestos na análise da escrita, não se pode fazer uma avaliação isolada destes, para que a árvore não esconda a floresta e se respeite a unidade na multiplicidade própria da personalidade humana do escrevente.


Neste ramo do saber é também válido o ditado “Os pormenores é que fazem a diferença”, porém, estes não podem ser avaliados isoladamente, mas globalmente e contextualizados.