30/05/10

Velocidade da escrita (3)

Realização do teste

Depois de ter combinado com os professores das turmas a hora em que iria aplicar os testes, dirigi-me às respectivas salas de aula. Comecei por explicar aos alunos, numa linguagem adaptada ao seu nível etário, os objectivos deste exercício lúdico.
Distribuí a cada aluno uma folha de papel branca A4, sem linhas. Disse-lhes que iam realizar um teste diferente dos outros que habitualmente costumam fazer. Este é mais curto, mais rápido e não conta para avaliação curricular. Procurei, deste modo, despertar o seu interesse e evitar inibições ou stress.
Menina, 8º ano, 14 anos e meio, 147 letras à velocidade máxima

Lembrei-lhes que poderiam utilizar o instrumento de escrita que preferissem e da cor que pretendessem (lápis ou esferográfica). No 1.º ano de escolaridade todos optaram por escrever com o lápis preto, pois é assim que estão habituados. Nos restantes anos, a grande maioria escolheu a esferográfica de cor azul, tendo alguns preferido a cor preta e muito poucos escolheram outras cores, como a verde e a roxa.

Escrevi no quadro a frase As nossas palavras são como um cristal e solicitei-lhes que a escrevessem no início da folha que lhes tinha distribuído, na posição vertical, a fim de se familiarizarem com o enunciado e não perderem tempo a copiá-la do quadro. Deste modo, os alunos não precisariam de levantar a vista da folha, especialmente, os dos primeiros anos de escolaridade, em que as capacidades neuromotoras e mnemónicas estão menos desenvolvidas.

Pedi-lhes que, numa primeira fase, durante um minuto, escrevessem a mencionada frase, à velocidade normal, tal como costumavam escrever durante as aulas, quando passavam apontamentos do quadro para o Caderno Diário. Lembrei-lhes que nesta primeira parte do teste, a preocupação principal deveria ser a qualidade e legibilidade da escrita e não a rapidez.

Preveni-os que, logo que lhes desse sinal para começarem, todos deveriam iniciar a escrever e que, quando lhes dissesse para terminarem, todos acabariam rigorosamente ao mesmo tempo, sem completarem a palavra nem escreverem nem mais uma letra. Na observação do cumprimento destas regras era ajudado pelo professor que se encontrava na sala a leccionar na altura da administração do teste.

Ao iniciar a contagem do minuto já todos deveriam ter a esferográfica na mão com a ponta assente na folha e, no final, mal eu desse sinal para terminar, deveriam pousá-la imediatamente. Cronometrei sessenta segundos. Enquanto os alunos estavam a fazer o teste, eu ia tomando nota daqueles que escreviam com a mão esquerda. Sobre os esquerdinos poderei, mais tarde, fazer outro tipo de pesquisa. Fica já a constatação que em cada grupo de 20 alunos, encontrei, em média, dois ou três esquerdinos, com predomínio dos do género masculino.
Terminada a primeira fase, fizeram um traço horizontal na folha, a fim de separarem o texto escrito numa fase e na outra. Entre as duas fases do teste – a primeira à velocidade normal e a segunda à velocidade máxima – os alunos descansaram cerca de três minutos, para poderem relaxar os músculos, antes de iniciarem a prova de velocidade propriamente dita, pois, a primeira fase tem por principal objectivo a verificação da capacidade de aceleração, quando comparar a quantidade de letras realizadas à velocidade normal com as conseguidas à velocidade máxima.

O teste da escrita cuidada é feito antes do teste de rapidez, porque me pareceu ser mais fácil, mais natural e mais pedagógico começar pelo ritmo normal. O aluno ainda está calmo interior e exteriormente e adquire mais treino para poder acelerar o máximo na etapa seguinte.

Relembrei-lhes que iriam escrever de novo a mesma frase o mais rapidamente possível e o maior número de vezes que conseguissem. Disse-lhes, ainda, que não fizessem emendas nem rasuras para não perderem tempo e que todas as letras que não fossem legíveis seriam descontadas.

08/05/10

Velocidade da escrita (2)

Contexto populacional

O ambiente social onde foi realizada a maior parte dos testes é característico dos subúrbios das cidades de média dimensão, como é o caso do Porto.
O nível sócio-económico é diferenciado. A maior parte dos encarregados de educação trabalha nos serviços, indústria ou por conta própria. Existe algum desemprego, famílias carenciadas e apoios sociais. O nível educativo e o aproveitamento escolar são médios em relação ao resto do país.

Uma pequena parte dos testes foi realizada numa pequena escola do Ensino Básico duma vila do interior norte do país, num ambiente rural, em que a maior parte da população se dedica à agricultura.


Método e objectivos


Como se pressupõe pela bibliografia, baseio-me nas escolas europeias, optando por um método grafológico eclético, uma vez que não existe uma escola grafológica portuguesa.

Os principais objectivos deste projecto consistirão na recolha de dados e na criação duma escala grafomotora da velocidade da escrita das crianças e adolescentes portugueses que frequentam os ensinos básico e secundário.
6.º ano, masculino, 12 anos de idade, 134 letras à velocidade máxima


A consciencialização das potencialidades individuais, fomentando a auto-estima em relação à própria escrita – condição favorável ao desenvolvimento da aprendizagem – foi outro objectivo deste trabalho.

Praticamente, todos os alunos reagiram com grande entusiasmo na realização do teste de escrita, bastante diferente de tantos outros que estão habituados a fazer. E muitos interrogavam-se sobre o meu interesse pelas suas escritas, manifestando o desejo de voltarem a realizar novo teste. Os docentes aderiram com entusiasmo, colaboraram na realização do teste e quiseram saber do resultado dos seus alunos.

Tratou-se de construir uma frase-tipo e administrá-la a alguns milhares de alunos de diferentes níveis etários e de ensino, seguindo critérios idênticos.

A frase escolhida para o teste foi As nossas palavras são como um cristal, fácil de memorizar, extraída (e adaptada) dum belo poema do poeta português Eugénio de Andrade, em Antologia Breve, dedicado às palavras (São como um cristal as palavras). Alterei as ordens gramatical e sintáctica da frase:o sujeito, que aparecia no final do verso, passou para o início da frase, tendo-lhe acrescentado As nossas. Desta maneira tornei a frase um pouco mais extensa e os seus elementos continuam a caber numa linha manuscrita duma folha A4.


A frase ocupa cerca de uma linha e tem 32 letras. Considero-a representativa da literatura portuguesa, porque tem palavras com várias dimensões, contém diversas vogais, a letra minúscula mais larga (m), duas hastes (l), uma perna (p) e consoantes como r e v que oferecem alguma dificuldade na aprendizagem. A presença da letra i, que exige a deslocação da esferográfica para colocar a pinta, e da letra t, com o traço obrigatório, torna esta frase ainda mais significativa. A frase contém uma única letra maiúscula no início (convinha que aparecesse pelo menos uma). A quantidade de espaços entre as palavras (seis) está numa proporção aceitável.


A dimensão das palavras não se afasta da média do vocabulário português. A frase contém 7 palavras e 32 letras, dando uma média de 4,7 letras por palavra. Num texto digitalizado em língua portuguesa, com 30 906 palavras, escolhido ao acaso, contabilizei uma média de cerca de 5 letras por palavra.

A frase é composta por três palavras monossilábicas, três dissilábicas e uma trissilábica. As palavras com um maior número de sílabas não surgem com tanta frequência, especialmente, entre as crianças que também são alvo deste teste.
O ponto final entrará na contagem, visto que os sinais de pontuação na língua portuguesa são utilizados numa percentagem igual ou superior à verificada na frase.

Se, em vez desta frase, tivesse sido escolhido um texto mais longo em que o aluno, durante um minuto, não repetisse praticamente nenhuma palavra seria mais representativo da língua portuguesa, mas também teria outras desvantagens: nem todos os alunos chegariam ao mesmo ponto do texto e seria necessário ser copiá-lo ou ditá-lo por impossibilidade de memorização. E, enquanto os alunos olhassem para o quadro ou ouvissem o texto, o nível de velocidade baixaria.

9.º ano, masculino, 15 anos de idade, 165 letras à velocidade máxima
Os testes foram administrados, com critérios idênticos, nos anos lectivos de 2005/2006, 2006/2007 e 2007/2008, aos alunos do 1.º ciclo da escola da Costa, do 2.º e do 3.º ciclos da escola de S. Lourenço, Ermesinde, no Grande Porto e a alunos dos 10.º, 11.º e 12.º anos de escolaridade da Escola Secundária da mesma cidade. Em Março de 2010 realizei mais 80 testes numa escola do interior do país, em Torre D. Chama, Mirandela, que ainda não estão contabilizados neste estudo. A média de velocidade conseguida nesta escola entre os alunos do 1º ao 4º ano de escolaridade foi semelhante à dos alunos da escola de Ermesinde (no Grande Porto), apesar duma ligeira baixa, atribuída ao facto de o teste ter sido administrado no 2º período lectivo. Os alunos que mais baixaram a média de letras por minuto foram os do 1º ano, uma vez que a aprendizagem de todas as letras do alfabeto ainda não tinha tempo de estar, devidamente, consolidada. Quando tiver nova oportunidade, realizarei outros testes na mesma escola do interior, porém, mais próximo do final do ano lectivo, à semelhança do que aconteceu nas escolas de Ermesinde.


Os testes são realizados em condições semelhantes para todos os alunos, evitando situações de cansaço ou stress, optando por condições ambientais e atmosféricas normais. Algumas crianças ansiosas, perante a tarefa de escrever velozmente, poderão agitar-se e ocasionarem uma diminuição da velocidade, em vez de aumentá-la, quando se lhes pedir que escrevam à máxima velocidade.

As instruções e as orientações serão iguais para com todos os alunos testados, sendo mais explícitas e pormenorizadas para aqueles que frequentem o 1.º ciclo (1.º, 2.º, 3.º e 4.º anos de escolaridade).

As crianças com 6 anos de idade não figurarão na escala, porque nesta idade ainda não deram todas as letras do alfabeto. Constarão da escala aquelas que tiverem pelos menos 6,6 (seis anos e seis meses) e que frequentem pelo menos o 1.º ano de escolaridade.